Uma ditadura pode lidar bem com o coronavírus?

O governo chinês tem fortes incentivos para minimizar o risco com a doença, e por isso poderá perder credibilidade internacional a médio prazo

Qual é a chance de o coronavírus causar centenas de milhares – ou até milhões – de mortes no mundo? Quão rapidamente ficará pronta a vacina? O esforço do governo chinês para conter os infectados é suficiente?

Há dezenas de perguntas em aberto sobre a epidemia que pode vir a assolar o planeta em breve. Pode até ser que haja bastante exagero. Não seria a primeira vez que milhões de pessoas entram em pânico à toa por causa de uma doença transmissível.

Talvez agora a coisa seja pior. Impossível saber. O principal problema é que os governantes chineses, responsáveis pela linha de frente de combate ao vírus, têm menos credibilidade para transmitir informações do que outros – porque o país é uma ditadura.

É comum – e errado – definir regimes ditatoriais como aqueles em que falta responsabilização dos políticos. Ditadores (e seus partidos políticos) podem sentir que o povo não está gostando de certas atitudes e ajustá-las, assim como ocorre em regimes democráticas. A questão é que essa responsabilização tem um claro limite em ditaduras. Governantes considerados péssimos não são necessariamente substituídos por outros através de voto popular. Podem, é claro, perder poder interno no partido. Mas o instrumento clássico de responsabilização política não é utilizado de modo semelhante às democracias.

Por isso, a preocupação dos comunistas chineses em parecer que têm a situação do coronavírus sob controle é imensa. A perda de reputação decorrente da má implementação de políticas públicas pode ser pior em uma ditadura do que em uma democracia, pois a insatisfação popular tem muito menos válvulas de escape.

É por isso que o governo chinês poderá mentir – mas não muito, pois a reputação internacional sofreria muito a médio prazo – sobre o real alcance do vírus.

(Este artigo expressa a opinião do autor, não representando necessariamente a opinião institucional da FGV.)