Tea Party agora comanda política externa dos EUA

Dois desafios para o indicado a secretário de Estado, Mike Pompeo: trabalhar com diplomatas e justificar ascensão da polêmica Gina Haspel ao comando da CIA

Donald Trump anunciou hoje, pelo Twitter, a saída de Rex Tillerson de seu ministério. Tillerson, ex-presidente da ExxonMobil, era o Secretário de Estado norte-americano, posto equivalente ao Ministério das Relações Exteriores no Brasil. Mike Pompeo, ex-deputado federal que comandava a CIA (Central Intelligence Agency), substitui Tillerson. Pompeo foi eleito em 2010 com generoso financiamento dos irmãos Koch e apoio da Tea Party, a facção mais conservadora do Partido Republicano. Em sua campanha, causou polêmica ao chamar o então presidente Barack Obama (Democrata) de “comunista islâmico diabólico” (evil muslim communist). Pelo visto, Pompeo está muito mais alinhado às preferências de Donald Trump do que Tillerson, alçado ao cargo especialmente por sua experiência no setor privado. Outro fator relevante para a nomeação de Tillerson no início do governo foi sua prática em lidar com os russos. Ironicamente, a gota d’água para a demissão pode ter sido a forte declaração de que sem dúvida alguma foi o governo russo que tentou assassinar o agente duplo Sergei Skripal e sua filha na Inglaterra recentemente. Mas Tillerson estava ameaçado de demissão do cargo há tempos.

Em 1º de outubro do ano passado, Trump deasautorizou, também via Twitter, a indicação do então ministro de que tentaria dialogar com a Coréia do Norte. A entrada de Pompeo como principal representante diplomático do país deverá ter consequências fortes para o encontro programado entre Kim Jong-Un e Donald Trump em maio. O diálogo entre os dois líderes tende, agora, a ser mais conflituoso do que antes. Com isso, ganha Kim Jong-Un. Para ele, ser visto como intransigente não faz mal à reputação, mas é ruim para quem é líder de um país democrático.

Mike Pompeo tem dois desafios imediatos além de lidar com iranianos e norte-coreanos. O primeiro é convencer diplomatas a trabalharem junto com ele. Nesse quesito, Rex Tillerson falhou de modo retumbante — em parte por conta de Trump. No primeiro mês de governo, os funcionários públicos mais relevantes do Departamento de Estado saíram de seus cargos. O gesto foi visto mais como uma recusa de trabalhar com um governo polêmico e defensor cego da incerta doutrina “America First” do que algo pessoal contra o ex-ministro. De qualquer maneira, Tillerson perdeu muitos dos experts do ministério. Sua nomeação — longe de ser das piores de Trump — foi considerada consequência de sua lealdade política ao presidente republicano, e não resultado de sua competência presumida.

De acordo com a cientista política Marissa Golden, quando presidentes nomeiam pessoas vistas como qualificadas para o cargode secretário de Estado, burocratas podem abandonar o departamento por diferenças ideológicas. (O livro de Golden se chama “What Motivates Bureaucrats? Politics and Administration During the Reagan Years” e foi publicado em 2000 pela Columbia University Press.) Isto seria plausível no governo Trump se o Departamento de Estado norte-americano fosse considerado “progressista”. Assim, ao nomear Tillerson, alguns burocratas se rebelariam e sairiam do governo por conta da discordância ideológica. Não foi o caso. Segundo um excelente estudo de Joshua Clinton e David Lewis, o Ministério das Relações Exteriores é considerado de centro. (O artigo se chama “Expert Opinion, Agency Characteristics, and Agency Preferences” e foi publicado na Political Analysis em 2008.) Mas essa percepção pode ocorrer porque dentro do ministério há diversas agências conservadoras e outras progressistas, como mostra a análise mais recente dos mesmos autores, junto com Mark Richardson, publicada no Journal of Politics este ano. (O artigo é “Elite Perceptions of Agency Ideology and Workforce Skill”.) O resultado dessa luta dentro da burocracia foi um secretário fraco, sem “comando do vestiário” (para usar o jargão futebolístico).

O segundo desafio de Mike Pompeo, ao lado de Trump, é justificar a ascensão de Gina Haspel ao comando da CIA. Caso seja confirmada no cargo pelos senadores, será a primeira mulher a dirigir a agência. Pompeo, Trump e Haspel concordam em um aspecto importante da política externa norte-americana nos últimos 17 anos: a tortura se justifica. Haspel tem experiência no assunto. Ela estabeleceu a primeira “penitenciária” da CIA no exterior, na Tailândia, em 2002. Dois prisioneiros foram torturados lá. Um deles, Abu Zubaydah, sofreu simulação de afogamento (waterboarding) 83 vezes. “Eles enchiam minha boca e meu nariz de água até eu sentir como se estivesse me afogando. Meu peito parecia que iria explodir por falta de oxigênio”, disse Zubaydah, de acordo com documentos da CIA divulgados no início do ano passado pelo New York Times. Em 2005, Haspel estava de volta aos Estados Unidos e pediu que os vídeos com as sessões de tortura fossem destruídos. Isso manchou seu currículo o suficiente para que deixasse de ser promovida para alguns cargos nos últimos anos. Sua indicação para dirigir a agência oferece uma oportunidade para que os senadores norte-americanos batam de frente com o presidente.

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