Sobre as mensagens de Moro: viva a liberdade de imprensa

A divulgação de mensagens entre Sergio Moro e Deltan Dallagnol pode ser comparada à divulgação dos Pentagon Papers, de 1971

A divulgação de mensagens entre Sergio Moro e Deltan Dallagnol me remeteu a 47 anos atrás.

Em junho de 1972, o ex-funcionário Daniel Ellsberg sentava, em um velório, chorando a morte de um amigo. John Paul Vann, ex-coronel do Exército norte-americano, fora vítima de um acidente de helicóptero. Vann e Ellsberg ambos lutaram para que os erros – e crimes de guerra – dos governos de John F. Kennedy (Democrata), Lyndon Johnson (Democrata) e Richard Nixon (Republicano) fossem remediados e divulgados. Cada um a seu jeito. Vann pediu baixa do Exército no início dos anos sessenta para atuar como funcionário de uma organização internacional.

Ellsberg, durante seu trabalho como analista da Rand Corporation (um think tank que aconselha o governo norte-americano), xerocou e divulgou os “Pentagon Papers” – um estudo de sete mil páginas sobre o envolvimento dos Estados Unidos no Vietna entre 1945 e 1967. Isso faz dele um personagem surpreendentemente atual.

A divulgação dos documentos não atendia, é claro, aos interesses militares norte-americanos. Mas eram de indiscutível interesse público. Ellsberg vazou-os para o New York Times em 1971. Uma primeira decisão da Suprema Corte impediu a publicação. O Washington Post também publicou os documentos pouco depois – e ganhou até filme com Tom Hanks e Meryl Streep (The Post — A Guerra Secreta) . Azar do Times! Ellsberg, o hacker reprográfico, ficou meses na prisão. Topou se sacrificar para que menos jovens negros e pobres norte-americanos morressem em batalha.

Em outro contexto, o site The Intercept achou por bem divulgar, por ser de extremo interesse público, mensagens de membros do Judiciário e do Ministério Público Federal sobre a Operação Lava Jato. O material foi obtido por um hacker, obviamente não identificado, de modo ilegal.

Inacreditavelmente, para mim, alguns jornalistas se mostram avessos à divulgação do material. Allan de Abreu, da revista Piauí, publicou o seguinte em seu twitter: “Vale a pena cometer um ato imoral (divulgar conversas obtidas ilegalmente por um hacker) para desnudar atos imorais de pessoas públicas? Isso me perturba como jornalista”. Não entendo. Funcionários públicos como Moro, Dallagnol e parceiros devem ser completamente transparentes sobre seus atos. As informações divulgadas pelo site de Glenn Greenwald não comprometem operações em andamento (ao contrário dos Pentagon Papers!) e não expõem a vida pessoal de ninguém.

Que o país – e o resto da imprensa, sem inveja – valorize bem esse trabalho e a liberdade completa de expressão que ainda temos.