Será Maduro um novo Fidel Castro?

O venezuelano tem condições mais adversas do que o carismático cubano, mas está no caminho para durar muito tempo no poder

O ano começou com novidades na Venezuela. Juan Guaidó, o deputado que lidera a oposição ao presidente Nicolás Maduro, conseguiu se reeleger presidente da Assembleia Legislativa – mas em uma sessão realizada fora do parlamento. Luis Parra, deputado cooptado por Maduro, atrapalhou a votação e autoproclamou-se presidente. Ironia grossa: um ano atrás, Guaidó autoproclamou-se presidente do país e foi reconhecido como tal por mais de cinquenta países. Maduro contra-ataca e enfraquece a oposição, que desde o segundo semestre de 2019 tem tido dificuldade para convocar protestos.

Poucos meses atrás, a ditadura venezuelana parecia estar por um triz. Crise econômica profunda, hiperinflação, protestos nas principais cidades e o surgimento de Guaidó, um líder que organizou a oposição, eram as péssimas notícias para o ditador.

Agora, com força renovada, estaria Nicolás Maduro em vias de se tornar um Fidel Castro menos carismático? O venezuelano está no poder há seis anos. Castro comandou Cuba por quarenta e nove.

A Venezuela é um país mais complexo, em termos sociais e econômicos, do que Cuba. Fidel manteve total controle sobre sua ilha. Não havia oposição partidária organizada. Os mais vocais contra o regime castrista eram expulsos, presos ou assassinados.

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Maduro não tem condições de fazer o mesmo. Deu-se conta disso ao quase cair após os protestos de 2019. Mas parece ter revertido a situação. Cooptou parte da oposição em negociações legislativas após Guaidó demonstrar força. Segurou os possíveis dissidentes do Exército. E continuou, sem percalços, a intimidar o Judiciário.

A diferença entre Castro e Maduro pode ser explicada emprestando argumentos de Freud. Segundo o pai da psicanálise, as pessoas lidam de duas maneiras distintas com o mal-estar da civilização: fugindo para a fantasia ou fugindo para a realidade (e agindo estrategicamente, com o máximo de organização e planejamento possíveis).

Fidel era um sonhador carismático que mesmerizava – e entediava – plateias com discursos de quatro horas. Com a garganta, segurou o país mesmo sendo megalomaníaco.

Menos poderoso, Maduro está percebendo que o chavismo de inspiração cubana não basta. Não é sua vocação. Mas não é ingênuo e está se beneficiando da oposição fraca para permanecer no poder para além do que o povo venezuelano gostaria. O mergulho na realidade pode ser seu trunfo. Ainda assim, igualar Fidel parece impossível — aos 57 anos, Maduro teria que ficar no cargo até os 100.

(Este artigo expressa a opinião do autor, não representando necessariamente a opinião institucional da FGV.)