Os 39kg de cocaína mostram que militares são humanos

Caso a Aeronáutica não puna o sargento de modo rápido e exemplar, o governo e os militares sofrerão desgaste

O segundo-sargento Manoel Silva Rodrigues, da Aeronáutica, foi preso com 39kg de cocaína na Espanha. Rodrigues fazia parte da comitiva que acompanha o presidente Jair Bolsonaro (PSL) ao encontro do G20 no Japão. Para azar do governo e deleite do Twitter, o sargento foi preso no Dia Internacional contra o Abuso e o Tráfico Ilícito de Drogas. Muitos lembraram, injustamente, das possíveis associações de Bolsonaro e familiares com milicianos cariocas. Não há nenhuma evidência de que o crime de Rodrigues está relacionado a algum integrante do governo ou à família do presidente.

Mas, mesmo isolado, o episódio ilustra um dos muitos não-ditos do atual governo: militares são humanos. Não são, necessariamente, menos corruptos e menos suscetíveis a cometer crimes do que outras pessoas. Entrevistado pela Rádio Gaúcha, o general Antônio Hamilton Mourão (PRTB) afirmou que “o vil metal corrompe. A pessoa tem que ser muito forte mentalmente, muito ciosa dos seus valores e dos seus deveres para não ser corrompida”.

Pois as organizações militares serviriam para socializar seus membros de modo que incorporassem valores “éticos” e enxergassem como traição ao grupo qualquer desvio das normas escritas e informais. Um pressuposto importante deste governo é que a nomeação de militares para postos burocráticos implicaria menos corrupção governamental. O sargento traficante é especialmente embaraçoso por este motivo.

Só há uma salvação: punição real, e rápida, para Manoel Silva Rodrigues e qualquer outro integrante das Forças Armadas envolvido. Nessas horas, o corporativismo pode estragar a reputação de uma organização – vide Deltan Dallagnol e a cega defesa de seus colegas no Ministério Público Federal.