O jeitinho Uber

Há outras questões, além das trabalhistas, que poderiam ser problemáticas para a Uber no Brasil, como a tributação

Na quarta-feira, 8, os motoristas da Uber ao redor do mundo fizeram greve. O motivo foi a insatisfação com o dinheiro “tomado” pela empresa em cada corrida. Com o IPO bilionário da Uber, é natural que seus motoristas parceiros (ou funcionários?) aproveitem o momento para chamar atenção. O desgosto dos motoristas com a mordida da empresa em sua renda pode ser um problema mundial. Ajustar isso não é difícil. Mas há outras questões, além das trabalhistas, que poderiam ser problemáticas para a Uber no Brasil e, por motivos variados, não são. A principal é: a empresa paga tantos impostos quanto deveria?

O site da Uber é claro. Em um release de fevereiro de 2018, a empresa afirma ter pagado 972 milhões de reais em impostos em 2017 – PIS, Cofins e Imposto de Renda no nível federal e ISS e outras contribuições municipais no nível local. Bom, isso é o que se espera de qualquer empresa. Fazer o contrário seria crime. O problema é que a Uber utiliza carros sem arcar com impostos específicos, como o IPVA, que ficam a cargo dos motoristas.

Em alguns países, como a Suécia, o fato de a empresa não pagar todos os impostos que poderia é o que a torna polêmica, de acordo com o artigo “Regulating Uber: The Politics of the Platform Economy in Europe and the United States” (Perspectives on Politics, 2018) da cientista política Kathleen Thelen. Lá os taxistas reclamaram porque motoristas da Uber seriam menos tributados do que eles. E líderes sindicais se indignaram porque a empresa não faz as contribuições tributárias que todos fazem. Esse “jeitinho” Uber incomodou até seus usuários, acostumados a pensar que na sociedade sueca todos pagam o que é justo.

Por aqui, nosso jeitinho não se incomoda que a Uber contribui com menos do que poderia. O conflito é em torno de direitos trabalhistas. Por isso parece mais difícil que as demandas dos motoristas encontrem apoio em toda a sociedade.