O Centrão não existe

A única função do Centrão, esse agrupamento de partidos que teoricamente facilita acordos políticos, na verdade, é encurtar manchetes

É recorrente no debate político a alusão a um grupo partidário amorfo, sem líderes nem ideologia, que aparece como uma entidade capaz de organizar acordos políticos: o Centrão. Já vi incluírem o PP (49 deputados federais), DEM (43), PR (40), PSD (38), PRB (21), PTB (15) e Solidariedade (11) no grupo. Juntos, somam 217 parlamentares – 42% da Câmara dos Deputados. Número mais do que respeitável.

A única coisa que têm em comum é a vontade de participar de qualquer governo através de cargos de confiança. Usando os termos do cientista político Carlos Pereira, são siglas que não têm estratégia “majoritária” – ou seja, não disputam, de verdade, o cargo de presidente. Qualquer sinalização nesse sentido faz parte da barganha com quem tem reais chances de vencer.

O problema é que não se pode excluir outros partidos a partir do uso desse termo. Por que o Avante não faz parte do Centrão? Ou mesmo o PDT? Bem, o PDT lançará Ciro Gomes à presidência. Mas passou os últimos 15 anos (especialmente de 2003 em diante) procurando cargos no segundo e terceiro escalão. O PDT aliou-se a Lula (PT) em 2003, depois saiu da base do governo e voltou no primeiro mandato de Dilma Rousseff (PT). Em dezembro de 2014, fez manha para devolver ao PT o controle do Ministério do Trabalho (“o de sempre”). Foram para os Correios e, de cara, nomearam seis novos vice-presidentes para a empresa. Típico comportamento de partido do “Centrão” sem levar a alcunha.

O termo teve origem na Assembleia Constituinte de 1987-1988. Os trabalhos constituintes começaram em subcomissões parlamentares, depois comissões, e por fim a Comissão de Sistematização. Esta ficou responsável por apresentar uma Constituição pronta para ser aprovada pelo plenário ainda em 1987. Mas a Comissão de Sistematização era formada, em sua maioria, por parlamentares do PMDB “progressista” que em breve formariam o PSDB. Era a Constituição de Mário Covas (PSDB). Formou-se um bloco suprapartidário com 319 parlamentares para estancar a proposta parlamentarista e anti-Sarney. O Regimento Interno da Constituinte foi alterado e os 319 deputados, apelidados de “Centrão”, continuaram se apresentando como um bloco.

Mas, segundo uma excelente análise dos cientistas políticos Rafael Freitas, Samuel Moura e Danilo Medeiros, não havia mais nada que unisse o Centrão. Apresentavam-se como um grupo de centro-direita, mas não bancaram propostas suficientemente coesas para mudar mais o rumo da Constituinte. (O texto ““Procurando o Centrão: direita e esquerda na Assembleia Nacional Constituinte, 1987-1988” foi publicado no livro “A Constituição de 1988: passado e futuro”, organizado por Maria Carvalho, Cícero Araújo e Júlio Simões em 2009.)

Após a aprovação da Constituição em outubro de 1988, os mais de trezentos deputados passaram a cuidar de sua sobrevivência eleitoral. Parte deles expulsou, na prática, gente como Fernando Henrique Cardoso e José Serra do PMDB. Outra parte ficou no PFL sob a liderança de Antônio Carlos Magalhães. Ainda outros permaneceram no PDS, PDC e PPB (atual PP), navegando as alianças estaduais para a esquisita eleição de 1990, a última descasada da disputa presidencial (ocorrida em 1989). Buscavam, no fim, o mesmo que os 217 parlamentares que hoje compõem o que se chama de Centrão. Sem líderes claros, no entanto, cada partido negocia por si. A única função do Centrão, na verdade, é encurtar manchetes.

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