Em defesa de Paulo Guedes

O ministro da Economia tem de agradar, simultaneamente, seu chefe, o presidente, empresários, o mercado financeiro, e por aí vai...

É fácil bater no ministro da Economia. Defini-lo como “Chicago Boy” é preguiçoso e mostra desinformação sobre, por exemplo, Gary Becker e a relevância da escola de Chicago para o entendimento atual sobre educação.

Paulo Guedes não conta com a simpatia do establishment de economistas que dominam o debate econômico brasileiro desde o Plano Real em 1994. Nota-se: são grandes no debate, mas deixaram de ser policymakers há muito tempo. Chegou a hora de relegá-los, com justiça, à história e deixar para o Twitter quem nunca ocupou cargo nem contribuiu com trabalhos acadêmicos originais. Vamos avaliar ministros de acordo com suas circunstâncias, seus discursos e seus atos.

Antes de mais nada, um lembrete: o chefe de Paulo Guedes é Jair Bolsonaro (PSL). Um presidente imprevisível com seguidores extremistas e um filho, Carlos, que os anima (coordena?) nas redes sociais. Olavo de Carvalho, filósofo autodidata, astrólogo envergonhado, também opina. Militares estatizantes influenciam os rumos do governo, embora cada vez menos.

Guedes tem que ser ouvido e levado a sério no meio disso tudo. Nada fácil. No segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso (1999-2002), o ministro da Fazenda Pedro Malan teve como “inimigo”, por alguns dias, o então ministro do Desenvolvimento Clóvis Carvalho. FHC demitiu Carvalho, colaborador de longa data, sem pestanejar. Bolsonaro nunca faria isso.

Ao contrário. Neste fim de semana, do modo mais deselegante que se pode imaginar, Bolsonaro demitiu Joaquim Levy da presidência do BNDES. O primeiro ministro da Educação de Lula (PT), Cristovam Buarque (à época do PT, hoje no Cidadania/PPS), reclamou ter sido demitido pelo telefone. Levy teve a saída forçada por vários motivos, não só pela bobagem ideológica de chamar qualquer um que trabalhou nos governos petistas de partidário.

Ministros têm que sinalizar lealdade ao presidente. Paulo Guedes fez isso ao reforçar as críticas de Bolsonaro a Levy, de quem não é próximo. Fernando Haddad (PT) aproveitou a confortável trincheira do Twitter, onde se refere infantilmente ao presidente como “Bozo”, para elogiar o diretor do BNDES que motivou a coisa toda.

Guedes não foi bobo: ficou do lado certo – quase sempre para um ministro, é o lado do presidente. Mesmo que discorde da demissão de Levy – o que é improvável –, sinalizar isso não faria bem a ninguém. Resumindo: Guedes é ministro em circunstâncias desfavoráveis à, digamos, boa governança.

Em seus discursos, até agora, pareceu bastante sincero. Os embates com parlamentares foram ótimos. Guedes demonstrou humildade ao responder a maioria das perguntas com calma e não hesitou em sair da Câmara dos Deputados ao ser desrespeitado.

Ministros devem prestar contas aos parlamentares, não fazer negociatas (Antonio Palocci, Guido Mantega) nem se submeter a humilhações. Ao falar para o público em geral, Guedes é espirituoso. Não é porque um presidente é corintiano que o governo tem que construir um estádio para seu time, disse ele, com outras palavras, em um evento na FGV em março.

(Já estive no estádio em Itaquera e me senti duplamente mal – por minha filha torcer para o time e pelo colosso ter sido erguido pela Odebrecht e custeado, em parte, com meu dinheiro.)

Entusiasta óbvio da Reforma da Previdência, Guedes é chefiado por alguém que passou a vida parlamentar sendo lobista do baixo escalão militar. O ministro conseguiu dividir a negociação da reforma com Rodrigo Maia (DEM), presidente da Câmara dos Deputados, sem que isso implicasse perder completamente o controle sobre a proposta.

Com a retirada do regime de capitalização do texto, Guedes foi incisivo em público, afirmando que os parlamentares podem acabar abortando a reforma. (Com a capitalização, os brasileiros fariam uma espécie de poupança mensal para receber o benefício após a aposentadoria.)

Não lhe restava alternativa. Endossar a proposta do relator Samuel Moreira (PSDB) sinalizaria que Guedes estava blefando ao dizer que queria uma reforma com impacto de R$ 1 trilhão nas contas públicas. E isso cairia bem mal com quem nele acreditava até semana passada.

No fim das contas, o ministro da Economia tem que agradar, simultaneamente, seu chefe, o presidente, empresários, o mercado financeiro, seus subordinados diretos, burocratas concursados e o partido do presidente.

Além disso, precisa ser enxergado como interlocutor digno pelos presidentes das duas casas legislativas. Até agora, Paulo Guedes tem conseguido fazer isso em um dos governos mais confusos da história brasileira.