Bolsonaro desiste do pacote anticrime e joga Moro aos leões

A principal proposta de Sergio Moro foi praticamente descartada – e pode significar um primeiro passo de Bolsonaro sobre 2022.

Bem mais do que seus antecessores, nosso presidente se caracteriza por falar o que pensa. Lula (PT) fazia isso raramente e Fernando Henrique Cardoso (PSDB), dizem, guarda para após a morte a revelação do que ele realmente pensa sobre os banqueiros que apoiavam seu governo.

Pois nesta quinta-feira (08), Jair Bolsonaro (PSL) pensou – e disse – que está na hora de Sergio Moro sacrificar o “pacote anticrime” enviado à Câmara dos Deputados em fevereiro.

Não se trata de discordância sobre o conteúdo. Bolsonaro não para de sinalizar, dia a dia, que “os caras vão morrer na rua igual barata, pô” – supondo, é claro, que policiais identifiquem e julguem criminosos antes de borrifar o inseticida de Moro.

O presidente é ainda mais radical do que o “excludente de ilicitude” do projeto do ministro, que prevê isentar de processos agentes da lei que atiram (e matam) cumprindo ordens.

O ministro não está tendo sorte com os parlamentares. Deputados federais já excluíram da proposta de Moro a possibilidade de prisão após condenação em segunda instância e o mecanismo do “plea bargain” – uma espécie de delação negociada pelo Ministério Público diretamente com o juiz do caso. (Sem Telegram, ressalte-se.)

E hoje Bolsonaro disse: “O Moro está vindo de um meio onde ele decidia com uma caneta na mão. Agora, não temos como decidir de forma unilateral. E temos que governar o Brasil”.

O presidente afirmou ainda que o governo sacrificou várias propostas para poder aprovar a reforma previdenciária. Cabe aos ministros entender e se adaptar.

Bolsonaro jogou o pacote anticrime aos leões. É provável que se desidrate ainda mais até que pare completamente. A apologia à violência policial não encontra apoio entre a maioria dos deputados. Mas Moro não pode acusar Bolsonaro de ser tchutchuco com bandidos.

Ao brecar o pacote anticrime, Bolsonaro estabelece sua superioridade hierárquica sobre Moro, seu ministro mais popular e, na prática, impossível de demitir.

Pode ser o primeiro passo de uma dança truculenta que definirá 2022.