Bolsonaro assume riscos desnecessários ao criar novo partido

Mais do que a volta de Lula, distrair-se com o Aliança Pelo Brasil poderá afetar as reformas econômicas

Caso Jair Bolsonaro (PSL) concretize a intenção de criar um novo partido político para si, será algo inédito sob a Constituição de 1988. A jogada é arriscada. Com 53 deputados, o PSL comandado por Luciano Bivar, ex-aliado do presidente, é quase o maior partido na Câmara dos Deputados – o PT tem 54. O novo partido do presidente, que possivelmente se chamará Aliança Pelo Brasil, terá dificuldades para aglutinar um número próximo desse – considerando que 12 deputados federais devem permanecer no PSL após a saída da família Bolsonaro. Há a possibilidade real de o Judiciário não permitir que os fundos eleitoral e partidário sejam levados pelos deputados aliados do presidente para seu novo partido. E então o PSL monopolizado por Bivar teria mais de R$ 100 milhões para gastar no ano que vem.

Na melhor das hipóteses, Bolsonaro conseguirá atrair 60 deputados federais e suas respectivas dotações financeiras para 2020. Será um partido mais coeso ideologicamente do que o PSL, hoje no ápice de sua desorganização. Bolsonaro e seus filhos terão total controle sobre as decisões partidárias. Isso é bom para o presidente. Mas ele talvez não conte com dois aspectos negativos de seu empreendedorismo organizacional.

O primeiro é que a criação do Aliança Pelo Brasil jogará o PSL para a oposição. Os bivaristas já estão chateados com o presidente e, depois disso, não terão motivo algum para apoiá-lo. Terão todos os incentivos para atrapalhar o máximo possível.

A segunda desvantagem é aumentar a fragmentação partidária, quesito no qual o Brasil é recordista planetário. Formar maiorias no plenário para aprovar o difícil pacote econômico de Paulo Guedes será um imenso desafio. O alívio para Bolsonaro poderá decorrer do fato de que, segundo os cálculos do cientista político Carlos Pereira (FGV EBAPE), esta é a Câmara dos Deputados mais conservadora desde a redemocratização. Se o novo partido de Bolsonaro der certo, saberemos se preferências ideológicas se sobrepõem a estratégias de carreiras eleitorais – dificultadas, à exceção dos bolsonaristas mais leais, com o Aliança Pelo Brasil.