As lições do Irã sobre o coronavírus: políticos também ficam doentes

Em questões graves de saúde, paranoias de governantes podem ser fatais

“Será a primeira sexta-feira sem rezar pela morte de estrangeiros”, escreveu um iraniano piadista após saber que as preces de sexta-feira, 6 de março, haviam sido canceladas no país. Até hoje, quatro políticos morreram em decorrência do coronavírus. A vice-presidente Masoumeh Ebtekar também está infectada.

Mesmo com mais de oito mil casos confirmados e mais de 200 mortes, os mandantes iranianos não estão levando a pandemia tão a sério quanto poderiam. O general Hossein Salami, da Guarda Revolucionária do Irã (pertencente às Forças Armadas), diz que o vírus é um ataque biológico comandado pelos Estados Unidos – primeiro na China, depois no Irã.

A paranoia de Salami não explica a Itália, muito menos o contato do chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, Fabio Wajngarten, com o presidente Donald Trump. Wajngarten disse no Twitter que está bem e não precisa de abraço do Drauzio Varella, mas está infectado e descansando em casa. Como não poderia deixar de ser, reclamou da imprensa.

Em menor grau do que no Irã, alguns políticos brasileiros parecem mais confortáveis com notícias falsas e paranoia do que com a verdade. Muitos de seus seguidores também. O melhor exemplo que vi no Twitter foi de um sujeito que acha o coronavirus um “leve resfriado, comparado à pandemia devastadora do #comunavirus, que empesteia a humanidade, causando devastação, miséria, mortes e extinção em massa”.

No Irã, esse tipo de pensamento está resultando em caos, com um governo descoordenado bloqueando acesso a algumas cidades enquanto os funcionários estatais continuam trabalhando normalmente.

O presidente Jair Bolsonaro acaba de realizar um teste para saber se está com o coronavírus. O resultado sairá na sexta-feira. Até lá, nossa sorte é que o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM), está sendo responsável e sereno.

(Este artigo expressa a opinião do autor, não representando necessariamente a opinião institucional da FGV.)