A Catedral de Notre-Dame deveria ter sido construída?

Gastar tanto dinheiro com catedrais implicou que mais pessoas viveram em miséria e analfabetismo por muito mais tempo do que deveriam

O trágico incêndio na Catedral de Notre Dame em Paris não matou ninguém. Um pequeno alento diante da perda histórica de uma construção terminada no século XIII. Até o presidente Jair Bolsonaro (PSL) lamentou, com palavras bem mais sentidas do que as que usou para tratar do incêndio do Museu Nacional durante a campanha de 2018.

É possível que o sentimentalismo do presidente tenha como fonte a dimensão religiosa da tragédia. A Catedral de Notre Dame foi uma das cerca de 1.400 igrejas góticas construídas pela organização católica entre 1100 e 1260. Por que a organização católica construía tantas igrejas? Qual o custo econômico e social disso? Valeu a pena construir a de Notre Dame?

A economista Amy Denning fornece algumas respostas em seu trabalho “How Much did the Gothic Churches Cost? An Estimate of Ecclesiastical Building Costs in the Paris Basin between 1100-1250”, feito em 2012 (download). A Igreja Católica gastou, em dois séculos, cerca de 20% do Produto Interno Bruto da França para erguer catedrais (os cálculos foram feitos com base no respeitadíssimo levantamento do economista Angus Maddison, autor de “Contours of the World Economy 1-2030 AD: Essays in Macro-Economic History” [Oxford University Press, 2007]).

A principal motivação dos católicos era sinalizar força e prosperidade para as religiões concorrentes. Se minha organização tem dinheiro sobrando para fazer catedrais, certamente ela tem prestígio entre seus fiéis para mantê-los leais. E se levanto centenas de catedrais em uma área, isso significa que outras organizações religiosas têm que achar outros lugares para firmar seus monumentos.

Mas tudo tem um custo. Gastar tanto dinheiro com catedrais implicou que mais pessoas viveram em miséria e analfabetismo por muito mais tempo do que deveriam. O trabalho escravo utilizado para erguer catedrais católicas teve como consequência a não-utilização de capital humano para desenvolver novas tecnologias e tirar o mundo da Idade Média. Está aí o custo social e econômico da bela – e arruinada – Catedral de Notre Dame.