Vale, uma consequência do gigantismo

É hora de refletir para valer o motivo pelo qual uma empresa tanto ambiciona o crescimento. E se este crescimento percorre o caminho distante da sociedade.

Indo direto ao ponto, não sou muito fã de empresas gigantes, mas não que eu seja contra empresas grandes ou até mesmo contra a busca delas pelo crescimento. Creio que buscar o crescimento é importante para todas as empresas inclusive na minha também. Mas me incomoda quando a busca pelo crescimento parece não ter limites para uma empresa e ela se torna um gigante dominante. Ou seja, tenho algumas restrições com o tamanho de empresas como Amazon, Apple, Microsoft etc, etc e etc.

Mas não sou ativista e, sim, consumo produtos delas, muitas vezes por opção e muitas por falta de opção (fruto deste gigantismo). A minha restrição é porque entendo que este gigantismo pode atrapalhar mais do que ajudar tanto os seus próprios funcionários, como seus clientes, a cadeia de distribuição do seu produto ou serviço e até mesmo a sociedade. Como assim? Você pode estar pensando. Afinal, o mindset estabelecido em nós nos faz acreditar que ter uma empresa grande, reconhecida, que vende muito, tem altos lucros e domina o mercado é o desejo principal de qualquer empresário ou empreendedor, certo?

Mas o meu incômodo está em tentar descobrir qual o limite para este crescimento, ou seja, entender quando a empresa deve escolher parar de crescer em prol de toda a cadeia de relacionamento dela. E talvez o caso recente da Vale possa ajudar a descobrir este limite.

A Vale é a terceira maior mineradora do mundo, inegavelmente uma gigante. E como em toda empresa gigante, na prática, ela só opera porque funciona informalmente como se fosse “dividida em pequenas empresas”. Esta é uma característica de toda empresa gigante e fica claro nas palavras ditas por Fábio Schvartsman, CEO da empresa, na audiência pública na Câmara dos Deputados.

“A Vale é uma das melhores empresas que eu conheci na minha vida. É uma joia brasileira, que não pode ser condenada por um acidente que aconteceu em sua barragem, por maior que tenha sido a tragédia”.

E completou com esta: “A Vale humildemente reconhece que, seja lá o que vinha fazendo, não funcionou, pois uma barragem caiu.”

A matéria completa você pode conferir aqui mesmo na Exame. 

Para mim, estas duas frases são emblemáticas. E, na minha leitura e talvez mesmo inconscientemente, ele usa o gigantismo da empresa para justificar algumas coisas:

– O porque ela não pode ser condenada, ou seja, é uma jóia e se for condenada, pode gerar problemas para o Brasil.
– E minimizar a falha, mesmo reconhecendo, quando ele que é o CEO diz “seja lá o que vinha fazendo”. Em outras palavras, a empresa é gigante e eu não consigo saber de tudo.
– Talvez até aceite que algumas pessoas sejam punidas, mas a empresa não.

Independente disso, acredito que a Vale continuará a ser gigante e outros problemas acontecerão. Se isso um dia mudará, não sei, até porque os líderes dela podem mudar, mas a essência do negócio creio que não. Portanto, convido-o à uma reflexão.

Se uma empresa existe apenas para gerar cada vez mais dinheiro e virar gigante para dominar o mercado é encarada como a única forma possível para isso, pode até ser que durante muito tempo isso funcione, mas em algum momento na sua trajetória, que será mais rápida para algumas e mais demoradas para outras, esta escolha também cobrará o seu preço de alguma forma – seja através da insatisfação de seus clientes, seja através de regulamentações de mercado, seja através de infelicidade de seus funcionários e fornecedores ou mesmo um desastre como este da Vale.

Ah, mas empresas menores também estão sujeitas a estes mesmos problemas da Vale, você pode pensar. Concordo que estarão, mas possivelmente elas não sobreviverão tanto tempo e nem poderão usar as mesmas “desculpas” que o CEO da Vale usou.