Relacionamento antes do Marketing

O relacionamento de uma empresa com seu cliente não é uma escolha. Mas o bom relacionamento é.

Há quase 3 anos eu e o Leonardo Barci escrevemos semanalmente aqui mas, sinceramente, não me lembro de nenhum artigo cujo título foi exatamente o nome do blog – Relacionamento antes do Marketing. Para mim, este nome, que também é o subtítulo do livro que escrevemos, é autoexplicativo sobre o conceito que trabalhamos. Mas talvez não seja para muitas pessoas. Talvez, apenas falando esta frase, muitos podem até achar que ela faz sentido, mas sem entender de maneira mais prática o que é este sentido. E é esta explicação que pretendo trazer neste artigo.

Gosto de fazer analogias quando explico uma ideia, pensamento ou mesmo algum conceito mais profundo, pois acredito que assim fica mais fácil a compreensão do que pretendo dizer. E quando falo sobre como e por que desenvolver uma estratégia para relacionamento com clientes, uma das analogias que mais uso é a do relacionamento de um casal. Também já usei a de uma árvore, falando da semente até o fruto, mas vamos ficar com a do casal desta vez.

Antes da analogia, quero dizer que não acredito em nenhuma estratégia de relacionamento que prometa ou que busque resultados rápidos em aumento de vendas, por exemplo. Infelizmente, boa parte das empresas no mercado pensa diferente. Não que não seja possível ter algum aumento de vendas rapidamente com uma ação de marketing que até colabore com o relacionamento, mas uma ação apenas não é uma estratégia de relacionamento. Na verdade, não acredito sequer que um conjunto de ações seja uma estratégia de relacionamento. E digo isso porque a estratégia de relacionamento não deve nunca nascer no departamento de marketing de uma empresa. Calma, vou explicar melhor isso.

Já falamos muitas vezes aqui que entendemos que o Relacionamento com clientes não é uma especialidade de marketing, ou seja, não acreditamos em marketing de relacionamento. Relacionamento para nós é algo inerente a uma empresa. Nenhuma empresa tem o fim em si própria e é autossuficiente. Ela precisa de clientes (e outros públicos) que consumirão seus produtos/serviços. Portanto, ela se relaciona com estes públicos de diversas maneiras diferentes (o que faz com que relacionamento também não seja apenas um departamento da empresa, como um SAC). Então, relacionamento não é uma escolha, pois se a empresa não se relaciona ela não existe, simples assim.

Entendendo então que o relacionamento é uma condição de existência da empresa, a escolha dela então está em fazer um BOM relacionamento porque este relacionamento pode ser ruim e normalmente será se nada for feito. E mais, o relacionamento como condição de existência da empresa será um aprendizado constante no processo de evolução desta. Isso significa que uma estratégia de relacionamento deve estar ligada diretamente ao Propósito e ao modelo de negócios da empresa. E fazer isso leva tempo e dá muito trabalho.

Bem, este é o conceito, mas vamos para a analogia.

Se você, caro leitor, é casado, já sabe que manter o casamento é um desafio diário. São duas pessoas diferentes, ligadas por um sentimento que às vezes é difícil explicar em palavras. E é um desafio porque, se por um lado existe satisfação, por outro também existe frustração, mas no final, se o sentimento que existe é mais forte, no “fluxo de caixa” do casamento o saldo ao final do dia ficará sempre positivo.

Também é difícil muitas vezes explicar em poucas palavras o sentimento de atração que um cônjuge tem para com o outro. Normalmente, resumimos na palavra amor.

E se você realmente gosta da pessoa, vai querer ficar sempre com ela. Neste caso, de uma forma ou de outra, com maior ou menor intensidade, o casal vai querer verdadeiramente conhecer um ao outro, entendendo que tem coisas boas e ruins mas, novamente, buscando sempre manter o “fluxo de caixa” positivo. Conhecer leva tempo e dá muito trabalho durante este processo todo, que parece nunca acabar até que a morte os separe.

Pois é exatamente assim que vejo o relacionamento entre uma empresa e um cliente. A empresa tem um propósito, um jeito de ser e uma personalidade. Este propósito está na sua essência e, conscientemente ou não, é este propósito que vai atrair o cliente. Simon Sinek (já falamos dele várias vezes aqui), diz na explicação do Golden Circle que um cliente não compra o que uma empresa faz, mas o por que ela faz, ou seja, o seu propósito.

Então, basta desenhar a estratégia de relacionamento baseada no propósito? Não. Só isso não basta porque também é necessário manter o “fluxo de caixa” positivo. Isso significa que existirão atritos entre a empresa e seu cliente, mas isso não deve ser o suficiente para que o relacionamento acabe. E é neste ponto que a estratégia de relacionamento começa a chegar no marketing. O marketing é a voz da empresa e o responsável então por fazer o relacionamento ser BOM, através de diversos tipos e formas de ações. Por isso, falamos que o marketing é para relacionamento e não de relacionamento. Infelizmente, o que encontro, muitas vezes, é o marketing ajudando, mesmo sem consciência, a piorar o relacionamento entre a empresa e o cliente.

E também como um casamento, para manter este relacionamento vivo e bom, vai levar muito tempo e vai dar muito trabalho. E estas duas palavras, tempo e trabalho, parece que são proibidas nas empresas, por isso talvez encontremos tantas empresas que agem parecendo que querem apenas paquerar o cliente e tirar uma vantagem o mais rápido possível (vendas). O problema é que assim, estas empresas influenciam também o comportamento dos clientes e estes optam, talvez até para se proteger, por buscar também alguma vantagem das empresas (preço). No final, isso não é bom para nenhum dos lados.

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