Trump não está ganhando as guerras comerciais dele

Presidente norte-americano falhou ao não entender que outros países têm seu próprio nacionalismo e perdeu respaldo popular em casa, já que a maioria de seus eleitores acredita que as tarifas dele prejudicam a economia

“Guerras comerciais”, disse Donald Trump em uma ocasião célebre, “são boas e fáceis de ganhar.” Só que ele está descobrindo que não é bem assim, no fim das contas.

Vamos definir aqui sobre o que estamos falando. Mesmo nos dias em que a maioria do comércio do planeta estava coberta por acordos internacionais, guerras comerciais, no sentido certo do termo, eram raridade.

Claro, havia várias taxas. Mas espetar uma tarifa em algo para proteger um grupo de interesse não é uma guerra comercial de verdade. Só é guerra mesmo se o objetivo não for recompensar alguns atores nacionais – qualquer um pode fazer isso se estiver disposto a romper com os acordos comerciais existentes no país -, mas sim, em vez disso, convencer os estrangeiros a dar alguma coisa que você quer. A infame tarifa Smoot-Hawley era estúpida e destrutiva, mas ela não foi feita para conseguir concessões de outros países. A tarifa de 1964 sobre as importações de caminhões leves, por outro lado, foi concebida originalmente para forçar a Europa a aceitar importações de frango congelado dos EUA. Isso, sim, foi uma guerra comercial.

E foi também um fracasso. Os Estados Unidos nunca conseguiram marcar terreno no mercado europeu de frango, e a tarifa dos caminhões leves continua em vigor, 55 anos depois.

Sem dúvida, aquela guerra comercial foi, veja só, canja de galinha comparada às guerras comerciais trumpianas, que envolvem tarifas que afetam centenas de bilhões em produtos. Essas tarifas devem, ou ao menos era essa a ideia, provocar enormes mudanças de política econômica no México, na China e, em última análise, em outros países.

Não está funcionando.

O México de fato concordou em substituir o Nafta pelo Acordo EUA-México-Canadá, que é diferente do Nafta no sentido de que…bom, para falar a verdade seria preciso uma lente de aumento para notar as diferenças. E, na cúpula do G-20, Trump pôs em standby a ameaça de mais tarifas à China e abandonou as sanções à Huawei em troca de algumas promessas genéricas.

Ou seja, por que é que Trump não está ganhando as guerras comerciais dele? A ala linha-dura em assuntos comerciais de seu círculo próximo provavelmente achava que a América tinha uma vantagem clara. Afinal, o México é muito mais dependente da economia americana do que o contrário; a China vende muito mais para nós do que nós para eles, e portanto, pareceria muito mais vulnerável a uma retaliação olho por olho, dente por dente.

Mas, ao que me parece, os guerreiros comerciais de Trump cometeram três erros cruciais.

Primeiro, como muitos americanos costumam fazer, eles falharam em entender que os outros países têm seu próprio nacionalismo, seu orgulho próprio. Trump se realiza quando está humilhando seus adversários; ora, nenhum líder chinês vai fazer ou provavelmente conseguiria assinar um acordo que parecesse uma rendição às exigências americanas.

Segundo, eles falharam em entender o caráter mutante do comércio moderno. Na época do presidente William McKinley, que alguns assessores de Trump enxergam como modelo, seria possível pensar em diferentes indústrias nacionais em competição umas com as outras – digamos, o aço americano contra o equivalente alemão. Hoje em dia as indústrias de todo o mundo estão interligadas por meio de complexas cadeias de fornecimento. Uma ruptura do Nafta causaria um estrago tremendo na produção dos dois lados da fronteira. Assim, a indústria americana não está apoiando as guerras comerciais de Trump do mesmo jeito que costumava dar suporte ao protecionismo da era McKinley. Pelo contrário, ela está horrorizada diante da ideia de mais disputas comerciais.

Por fim, Trump não tem respaldo popular para suas guerras comerciais. A maioria dos eleitores acredita que as tarifas criadas por ele prejudicam a economia. Além disso, a retaliação da China, ainda que afete uma cotação muito menor do dólar em termo de produtos do que as tarifas de Trump, está afetando fortemente bases eleitorais das quais ele depende – especialmente os fazendeiros.

Nada disso significa que Trump esteja prestes a abandonar as tarifas que impôs. Mas isso não passa de protecionismo, o que de fato é fácil. O que não é fácil é vencer uma guerra comercial. Até aqui, Trump não teve vitória alguma, e as chances são de que nunca conseguirá uma.