Trump e seu surto microbial da América Grande de Novo

A resposta de Trump à catástrofe econômica tem oscilado entre a complacência e a histeria

Durante três anos o presidente Trump viveu uma vida de fantasia. Ele enfrentou somente uma crise grande que não foi ele mesmo quem criou – a do furacão Maria – e, ainda que a resposta estabanada dele tenha contribuído para uma tragédia que matou milhares de cidadãos americanos, as mortes aconteceram longe das câmeras, permitindo a ele negar que qualquer coisa de ruim tivesse acontecido.

Agora, porém, nós nos vemos diante de uma crise muito maior com o coronavírus. E a resposta de Trump até agora tem sido muito pior do que até mesmo os críticos mais severos dele seriam capazes de imaginar. Ele vem tratando uma ameaça terrível como um problema de relações públicas, misturando negação com um apontar de dedos e transferência de culpa frenéticos.

O governo dele está fracassando em cumprir a premissa mais básica de qualquer ação de resposta a pandemias: testes em grande escala para mapear a propagação da doença. Ele está fracassando em implementar as recomendações de especialistas em saúde pública, decretando em vez disso proibições sem sentido à chegada de voos vindo de outros países, quando todos os sinais são de que a doença já está bastante consolidada nos Estados Unidos.

Além disso, a resposta de Trump à catástrofe econômica tem oscilado entre a complacência e a histeria, com um componente forte de compadrio.

De certo modo é um mistério o porquê do Centro de Controle e Prevenção de Doenças de Atlanta – em situações normais uma agência bastante competente – ter falhado tão miseravelmente no oferecimento de recursos para os testes em grande escala do coronavírus durante os primeiros e cruciais estágios da pandemia. Porém, é difícil evitar a suspeita de que a incompetência talvez esteja relacionada à política, e provavelmente ao desejo de Trump de minimizar a ameaça.

Segundo a agência de notícias Reuters, o governo Trump está ordenando às agências de saúde que tratem todas as decisões relativas ao coronavírus como confidenciais. Isso não faz sentido e é de fato destrutivo em termos de política pública, mas faz todo o sentido se o governo não quer que o público saiba de que modo as ações de Trump estão pondo vidas americanas em perigo.

De todo modo, está claro o que nós deveríamos estar fazendo agora que deve haver no melhor dos cenários milhares de casos em todo o território americano. Nós temos de diminuir o ritmo de propagação do vírus criando “distanciamento social” – banindo grandes aglomerações, incentivando quem puder a trabalhar de casa – e colocando regiões de grande circulação de público em quarentena. Isso pode ou não ser o suficiente para impedir que dezenas de milhões fiquem doentes, mas mesmo a disseminação dos efeitos da pandemia ao longo do tempo ajudaria a impedir que ela sobrecarregue o sistema de saúde, diminuindo o número de mortes.

Mas não havia praticamente nada disso no discurso recente de Trump no Salão Oval: ele continuava a agir como se essa fosse uma ameaça que alguns estrangeiros estavam trazendo para a América.

E, quando se trata da economia, Trump parece vacilar dia após dia – até mesmo hora após hora – entre afirmações de que tudo está bem com cobranças por incentivos enormes e mal concebidos.

A maior ideia dele para a economia é um grande feriado fiscal para a folha de pagamento. Segundo a Bloomberg News, ele disse a senadores republicanos que queria que o feriado se estendesse “até a eleição de novembro, para que os impostos não voltassem a subir antes que os eleitores decidam reconduzi-lo à Presidência”. Ou seja, ao que parece ele falou em voz alta o que provavelmente queria dizer em voz baixa.

Esta seria uma movimentação enorme. Os impostos sobre a folha de pagamento representam 5,9% do produto interno bruto; em comparação, o incentivo de Obama de 2009 a 2010 chegou a cerca de 2,5% da folha, em seu auge. Mesmo assim, seria um incentivo bastante mal direcionado: grandes isenções para trabalhadores bem remunerados, mas nada para os desempregados ou aqueles afastados sem receber por motivos de saúde.

Por que agir dessa maneira? Afinal de contas, se o objetivo é colocar dinheiro na mão das pessoas, por que simplesmente não dar os cheques para elas? Ao que parece, os republicanos não conseguem pensar em uma política econômica que não tenha a forma de cortes de impostos.

Trump supostamente também quer oferecer auxílio a indústrias específicas, entre elas as de óleo e de xisto – uma continuação dos esforços do governo dele de subsidiar combustíveis fósseis. Os democratas, por outro lado, estão propondo um pacote que de fato abordaria as necessidades do momento: testes grátis de coronavírus, afastamento por doença remunerado, benefícios de desemprego ampliados e um aumento nos fundos federais correspondentes para os programas do Medicaid, o que ajudaria tanto os Estados individuais a atenderem às demandas da crise quanto a manter o gasto geral, uma vez que isso aliviaria a pressão nos orçamentos estaduais.

Notem, por sinal, que essas medidas ajudariam a economia em uma ano de eleição e, portanto, sem dúvida, funcionariam para dar apoio político a Trump. Porém, os democratas estão dispostos a fazer a coisa certa mesmo assim – em um contraste absoluto com o comportamento dos republicanos após a crise financeira de 2008, quando eles ofereceram uma política de terra arrasada a qualquer coisa que pudesse atenuar o estrago.

A Casa Branca, contudo, não está aceitando nada disso, com um oficial chegando até a acusar os democratas de forçar uma “pauta da esquerda radical”. Acham que afastamento por motivo de saúde remunerado é igual a socialismo, mesmo em uma pandemia.

Ou seja, o que se passa? O que nós estamos vendo aqui é um derretimento – não só dos mercados, mas um derretimento da mente de Trump. Quando coisas ruins acontecem, só existem três coisas que ele sabe como fazer: insistir que as coisas estão bem e que as políticas dele são perfeitas, cortar impostos e jogar dinheiro na direção dos amigos dele.

Agora Trump está diante de uma crise em que nenhuma dessas medidas vai funcionar, em que ele de fato precisa cooperar com a presidente da Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi, para evitar uma catástrofe. O que nós vimos no discurso de Trump de 11 de março foi que ele é completamente incapaz de se mostrar à altura do desafio. Nós precisávamos ver um líder; o que nós vimos em vez disso foi um falastrão incompetente e delirante.