Sem honra entre bandidos

Poderosos e corruptos são incapazes de admirar as mulheres e homens que servem à pátria

Talvez há coisa de sete ou oito anos, eu tive uma conversa memorável com um ex-fuzileiro naval dos Estados Unidos que havia servido tanto no Iraque quanto no Afeganistão, e deu baixa com honras após ser gravemente ferido por um dispositivo explosivo improvisado. (Ele já tinha se recuperado plenamente.) Como outras autoridades militares com quem eu falei, ele era cuidadoso e bem-informado, quase o tipo intelectual – basicamente alguém com quem eu poderia conversar, apesar de ele ter passado por experiências que eu não consigo fazer ideia.

Só que ele estava, ele disse, achando sua experiência pós-militar pouco satisfatória, porque estava descobrindo que “não existe honra na vida civil”.

É estranho dizer isso, mas eu acho que entendi o que ele quis dizer. Eu tive uma vida profissional maravilhosa, sendo pago para fazer um serviço do qual gosto, e que até mesmo é como uma vocação. Mesmo assim, há momentos em que eu sinto falta de algo mais: uma impressão de que eu poderia estar a serviço de um propósito maior, o que inclui uma disposição em fazer grandes sacrifícios se necessário. E não me parece que eu seja o único a ter essa sensação, ou a sentir uma admiração especial por esses agentes públicos, não apenas no Exército, que vivem de acordo com um código de honra.

Porém, se você é poderoso e corrupto, você não admira estas mulheres e homens que servem à pátria com honra. Pelo contrário, você odeia e tem medo delas, porque o senso de dever destas pessoas pode muito bem se colocar no caminho das suas falcatruas. E você odeia especialmente a admiração que a maioria de nós sente por esses servidores públicos honrados, o que torna mais difícil deixá-los de lado.

Esse ódio da honra, creio eu, é o elo entre duas grandes histórias relacionadas ao presidente Trump nos últimos dias e semanas.

Uma das histórias envolveu Marie Yovanovitch, ex-embaixadora da Ucrânia despedida por Trump. Embaixadores servem às vontades do presidente, de modo que a demissão em si não foi ilegal. O que ficou claro ao longo de vários dias de depoimentos, porém, foi que Trump queria Yovanovitch fora justamente porque ela teimou em fazer o trabalho dela e em servir o país em vez dos interesses pessoais de Trump.

E o motivo pelo qual Trump tentou manchar a reputação de Yovanovitch até mesmo durante o depoimento dela ao Comitê de Inteligência da Câmara foi a raiva dele com o modo como ela estava se saindo: como uma autoridade que tentou servir com honra. Dá para imaginar a fúria dele diante dos aplausos de pé que ela recebeu ao final de seu depoimento.

A outra história relacionada à honra foi a decisão de Trump – contra os desejos dos líderes militares americanos – de perdoar três oficiais que foram acusados ou condenados por crimes de guerra.

Por que ele os perdoou? Quando tuitou que estava revisando os casos deles, Trump declarou que “nós treinamos nossos rapazes para serem máquinas de matar, e depois os processamos quando eles matam”. Mas é justamente porque soldados têm o terrível poder e responsabilidade de matar pessoas a serviço da pátria que se espera que eles façam tudo que puderem para evitar matar de modo indiscriminado. O comportamento honroso não é um obstáculo enfadonho ao uso da força; é parte essencial do que torna nossos militares algo diferente de uma gangue.

Só que Trump odeia quem serve com honra. Ele prefere bandidos.

Esse é o ponto do trumpismo. Não é apenas uma ideologia da qual eu por acaso discordo; não é nem mesmo um culto à personalidade que celebra um líder que ninguém devia admirar. No fundo, é uma rejeição dos valores que nós costumávamos achar que nos definiam como nação. Pode-se dizer que Trump está em guerra com a verdade, a justiça e o jeito de ser americano. E essa guerra, é um tanto assustador pensar, é uma que ele pode ganhar.