Quem ganha e quem perde no escândalo ucraniano

Parece que Trump e seu partido finalmente estão no tipo de encrenca em que merecem

Não faz muito tempo desde que o congressista Adam Schiff, presidente do Comitê de Inteligência da Câmara dos Deputados dos EUA, revelou que o governo Trump estava escondendo ilegalmente do Congresso uma denúncia contra um delator. Quando saiu essa notícia, eu – e a maioria das pessoas que acompanhava a história, provavelmente – imaginei que haveria mais chiadeira, e que no entanto seria outro exemplo claro de um ato ilícito do presidente Trump que não incendiaria o Congresso ou a opinião pública.

E no entanto, isso ainda pode acontecer. Eu imagino e espero que os especialistas em pesquisa estejam trabalhando, enquanto temos essa conversa, para tentar medir a avaliação do público sobre o escândalo. Desta vez, porém, parece diferente, talvez por ser algo tão simples e óbvio. O presidente dos Estados Unidos e seu advogado particular admitem que acionaram um regime de outro país para produzir sujeiras sobre um de seus adversários políticos. Agora, parece que o presidente tentou pressionar o tal regime de outro país segurando ajuda militar crucial, o que piora a situação.

Como resultado, este caso está sendo detonado de um jeito diferente de outros escândalos de Trump, não importa quão sérios fossem. Uma votação de impeachment pela Casa em pouco tempo passou de improvável para mais provável do que não agora que a presidente da Câmara, Nancy Pelosi, anunciou a abertura de uma investigação formal de impeachment.

Por que isso importa? Em geral, eu não gosto da mania jornalística comum de identificar quem “ganha” e quem “perde” em meio aos desdobramentos políticos. Neste caso, porém, me parece um bom jeito de contabilizar o resultado até aqui. Assim sendo, aqui vão três ganhadores e dois perdedores com o que aconteceu até agora.

Ganhadores

1. Congressista Adam Schiff: Depois de anos em que parecia que nada conseguiria abalar a habilidade de se esquivar de problemas de Trump, Schiff, democrata da Califórnia, deu início a uma avalanche que tem grandes chances de derrubar a parede junto.

2. A narrativa de Trump como um traidor dos EUA: O tempo todo houve fartas evidências de que a equipe de Trump conspirou com a Rússia em 2016, e de que enquanto esteve no cargo Trump não viu problema algum em agradar ditadores sanguinários de outros países. Mas a coisa toda era muita complicada, e obscura o bastante para confundir muita gente. Pressionar a Ucrânia para difamar o filho do ex-vice-presidente Joe Biden é algo que qualquer pessoa consegue entender e, em retrospecto, torna convincentes todas as acusações anteriores.

3. Repórtes esforçados: Nós não sabemos a história completa de tudo o que Trump & cia. fizeram que atiçou o delator, mas a última semana e meia tem mostrado uma revelação devastadora atrás da outra, tudo graças aos repórteres dos principais veículos jornalísticos, inclusive o New York Times.

Perdedores

1. Comentário jornalístico “abalizado”: Os dois maiores pecados da imprensa americana em 2016 foram o da falsa equivalência e o da substituição de uma narrativa descritiva do que estava de fato acontecendo por especulação sobre como as coisas se “rolariam” politicamente. Sem dúvida, a reação inicial de alguns na impresa foi de apresentar o abuso confirmado de poder cometido por Trump e suas afirmações infundadas de corrupção contra Joe Bide como igualmente graves, e de sugerir que o episódio de alguma maneira “levanta dúvidas” sobre Biden – uma esquiva covarde da obrigação da imprensa de chegar à verdade. Porém, artigos nessa linha foram alvo de várias críticas, e eu estou vendo cada vez menos esse tipo de coisa nos últimos tempos.

2. Republicanos no Senado: É bem provável hoje que os senadores do Partido Republicano tenham de votar nas acusações de impeachment – acusações que serão todas baseadas em abusos documentados, e não em interpretações contestadas. A maioria, se não todos eles, sem dúvida, vai votar para absolver Trump. Porém, ao fazê-lo, eles vão expôr a corrupção e falta de lealdade deles aos princípios americanos para quem quiser ver.

Ou seja, as últimas semanas têm sido agitadas. E ainda que nada esteja resolvido até novembro do ano que vem, e provavelmente nem até lá, parece que Trump e seu partido finalmente estão no tipo de encrenca em que merecem.