Quando mentirosos vão à guerra

A evidência de que nós estávamos sendo enganados a entrar em uma guerra era tão esmagadora quanto óbvia

Escrevi meu primeiro artigo para o New York Times há 20 anos. Eu fui contratado para focar em negócios e economia – me lembro de Howell Raines, editor da página de Opinião à época, dizer: “Nós temos cinco colunistas escrevendo sobre o Oriente Médio, o que é muito, e nenhum escrevendo sobre a economia”. E eu genuinamente esperava que fosse passar meu tempo escrevendo na maioria dos casos sobre coisas como a bolha tech, a entrada da China na economia mundial e por aí vai.

Mas os eventos se intrometeram, de maneiras que parecem altamente relevantes para nossa situação atual.

Primeiro, eu me vi horrorizado pela campanha eleitoral à presidência dos EUA de 2000 e suas consequências imediatas – tanto no conteúdo da campanha quanto na maioria da cobertura da imprensa. Para mim era óbvio que George W. Bush estava sendo profundamente desonesto quanto às suas propostas de política econômica em temas como cortes de impostos e privatização da Previdência Social – desonesto de um modo que nós nunca tínhamos visto em eleições nacionais do passado.

No entanto, as convenções sobre uma cobertura “equilibrada” impediam que a mídia americana tornasse clara a desonestidade de Bush. Como eu escrevi em novembro de 2000, “se um candidato à Presidência declarasse que a Terra é redonda, sem dúvida veríamos uma análise do noticiário com o título ‘Formato da Terra: Os dois Lados têm Lá Sua Razão’”.

Então o 11 de setembro de 2011 aconteceu, e veio a exploração partidária da atrocidade. Em questão de dias, os republicanos tentaram usar o ataque terrorista como desculpa para cortar impostos de empresas e dos ricos. Só que ninguém queria ouvir falar disso; a narrativa da imprensa era a de um país unido em sua determinação de se manter de pé, e a realidade corrupta foi em grande parte deixada de lado.

Esse escanteio da realidade, por sua vez, preparou o terreno para o terrível fracasso político e de mídia que foi a trajetória da guerra americana no Iraque.

A evidência de que nós estávamos sendo enganados a entrar em uma guerra era tão esmagadora quanto óbvia. Mas eu me via na condição de uma voz muito isolada ao apontar isso, tendo de ouvir – entre outras coisas – que deveria me limitar à economia. (Entre os relativamente poucos políticos que tiveram coragem de se opor à guerra estavam os parlamentares Bernie Sanders e, até mais surpreendente para mim, Nancy Pelosi.)

Como é que eu sabia que o argumento em defesa da guerra era fraudulento? Eu não era nenhum especialista em política externa, armas de destruição em massa ou algo do tipo. Eu estava, contudo, lendo bastante – além disso, havia algumas reportagens, publicadas por Knight Ridder, é bom dizer, que expunham o que estava acontecendo.

Fora isso, eu vinha acompanhando o governo Bush em outros temas, e já tinha visto um padrão de desonestidade. Em especial, o jeito como a guerra foi vendida soava muito como o modo como os cortes de impostos de Bush foram vendidos: uma lógica em constante mutação para uma política econômica que jamais mudaria. Isto é, um padrão de mentiras sobre os assuntos internos era razão o bastante para acreditar que estávamos sendo mentidos a entrar em guerra.

O que nos traz ao momento atual. A mídia e o público são muito menos ingênuos hoje do que eram então, mas mesmo agora há uma tendência a aceitar as declarações públicas pelo que parecem ser, ou ao menos de modo quase sério.

Não façam isso. As mentiras não têm limite. Governos que são desonestos sobre a política interna tendem a ser desonestos também sobre a política externa. E mesmo que o governo Bush tenha mentido um bocado, o presidente Trump e companhia mentem sobre tudo.