Os trabalhadores estão bem

A crise de empregos entre 2007 e meados de 2017 foi um enorme desperdício de potencial humano e econômico, mas depois de fins de 2011, a taxa de emprego na população economicamente ativa começou a se recuperar e segue se recuperando nos EUA

Existem pessoas que se debruçam sobre os detalhes de qualquer relatório econômico novo, atrás de pistas sobre o próximo passo da economia. Eu não sou uma delas, e não porque esse tipo de previsão do futuro seja inútil (ainda que seja superestimada), mas sim porque é uma arte oculta que eu nunca tentei dominar. Adivinhar os números do crescimento do próximo trimestre em termos de produto interno bruto é uma empreitada muito diferente de tentar entender como funciona a economia, o que em certo sentido ainda é meu emprego principal.

Porém, o acúmulo de relatórios de curto prazo, uma hora, acaba de fato nos dizendo algumas coisas sobre os fundamentos. E havia um recado no último relatório de empregos que é consistente com o que esses relatórios vêm nos dizendo no último ano, ou últimos dois anos. A saber, que os trabalhadores estão bem.

Para entender o que eu quero dizer com isso, considerem um número que muitos economistas hoje acreditam que seja um retrato do mercado de trabalho melhor que o índice oficial de desemprego: a taxa de emprego na população economicamente ativa, a porcentagem de americanos na faixa etária apta a trabalhar, entre 25 e 54 anos, que têm emprego.

Na véspera da crise financeira de 2008, a taxa de emprego da população economicamente ativa estava um pouco abaixo dos 80%. Quando a crise estourou, ela caiu para 75%, e continuou baixa por um bom tempo – tempo suficiente para muitas pessoas influentes declararem, com ares de grande sabedoria, que o emprego da população economicamente ativa nunca mais ia se recuperar até o nível anterior.

Por que não? Bem, segundo as Pessoas Muito Sérias (expressão que eu usei bastante naquele período), os trabalhadores americanos simplesmente não tinham as habilidades de que a economia moderna necessitava. E além disso, talvez também faltasse motivação a eles, que preferiam jogar videogames em vez de trabalhar, ou recorrer a drogas e álcool.

Aqueles de nós com uma noção de história reconhecemos esses argumentos: gente influente já fez afirmações parecidas na década de 30, garantindo que o desemprego elevado era um reflexo da inadequação dos trabalhadores americanos, e não uma simples falta de demanda suficiente. Mas aí veio a Segunda Guerra Mundial, e de uma hora para outra todos aqueles trabalhadores inaptos se mostraram perfeitamente capazes de operar a maior economia de defesa que o mundo jamais viu.

Sem dúvida, depois de fins de 2011, o emprego na população economicamente ativa começou a se recuperar, e de fato continua se recuperando até agora, ano após ano. E agora o emprego nessa faixa etária está de novo de volta ao que era antes da crise financeira. Os trabalhadores americanos de fato, ao que parece, têm tanto as habilidades quanto a motivação para trabalhar de modo produtivo, e foi o que fizeram esse tempo todo. Ah, sim, eles podem não ter algumas capacitações específicas de que alguns empregadores precisam – mas vejam só que coisa, em um mercado de trabalho desafiador muitas empresas estão dispostas a treinar funcionários que claramente têm a habilidade inata para desempenhar funções que nunca fizeram antes.

Assim, como nós podemos interpretar a longa tormenta no emprego de 2007 a meados de 2017?

A resposta é que ela representou um enorme desperdício de potencial humano e econômico. Nós devíamos ter feito o que quer que fosse necessário para incentivar a economia, incluindo-se aí um bocado de gastos com infraestrutura. Em vez disso, nossa elite ficou obcecada com uma reforma de direitos e privilégios ao mesmo tempo em que insistia que nossos trabalhadores não eram bons.