O trilionário corte de impostos que o tempo esqueceu

Sim, o desemprego está baixo, mas o que parece fazer a diferença nas eleições é a velocidade das mudanças

Tradicionalmente, costumava-se decidir as eleições presidenciais americanas em grande parte pelo desempenho da economia naquele ano ou pouco antes, e antes do dia da eleição. Se o produto interno bruto estivesse crescendo depressa, era a Alvorada da América, e o partido no poder ganhava; se houvesse uma recessão (como aconteceu em 2008), ou caso o crescimento estivesse lento demais para criar empregos (caso de 1992), a Casa Branca mudava de mãos.

Mas é improvável que essa seja a história no ano que vem. É verdade que uma recessão – provocada, digamos, por uma guerra comercial em ampliação – poderia selar o destino do presidente Trump; e há de se concordar que uma alta (vinda de onde?) poderia compensar a aura de escândalo e possível traição que ronda o governo dele. Porém, neste momento a economia só parece estar trupicando. Sim, o desemprego está baixo, mas o que parece fazer a diferença nas eleições é a velocidade das mudanças, e essa não está impressionando ninguém, com o crescimento em torno dos 2% ao ano.

Não era isso que se imaginava que fosse acontecer. Há dois anos, os republicanos tinham o controle das duas Casas do Congresso, além da Casa Branca, e usaram esse controle unificado para implementar um enorme corte de impostos, voltado principalmente para as empresas, o que se esperava que trouxesse um grande e prolongado salto econômico. As taxas menores para empresas, dizia a lenda, levariam as companhias a trazer de volta o dinheiro que investiram fora do país, alimentando uma alta nos investimentos empresariais que faria crescer a produtividade e os salários.

Muitos economistas, inclusive eu, achavam essas afirmações gravemente exageradas, e que a compensação de fato do corte de impostos seria muito menor do que afirmavam os defensores da medida. Quase dois anos se passaram, e ao que parece aquele corte de impostos não teve basicamente compensação alguma. Não está havendo um retorno visível do capital do exterior, e o investimento das empresas, se bobear, está até menor.

Como é possível que um corte de impostos desse – a receita com os impostos das empresas caiu quase pela metade! – tenha tão pouco impacto no comportamento das empresas? Eu vejo três explicações possíveis.

Primeiro, pode ser que tenha havido algum efeito positivo de fato, mas ele foi (des)compensado pelas guerras comerciais de Trump, que estão aumentando a incerteza e barraram os investimentos.

Segundo, muito dos lucros das empresas modernas provavelmente consiste em “aluguéis” de monopólios – lucros que não representam retornos sobre investimentos, mas que refletem, em vez disso, o valor do domínio do mercado. Cortar impostos sobre esses aluguéis não dá um incentivo para investir, só deixa as empresas com mais dinheiro.

Por fim, muito do que parecia ser investimento no exterior por parte das empresas americanas pode ter sido uma ilusão. Pesquisas recentes mostram que muito do fluxo de capital transfronteiriço é de investimentos “fantasma”, que na verdade são apenas truques contábeis para tirar proveito de paraísos fiscais. O corte de impostos de 2017 não trouxe muito dinheiro de volta para o país porque o dinheiro nunca saiu daqui para começo de conversa.

Qualquer que seja a combinação de motivos, o fato mais espantoso é o modo como o corte de impostos de Trump vem mais ou menos sumindo do nosso discurso. Afinal de contas, foi o maior feito legislativo de Trump, e parecia grande coisa. Mesmo assim, ninguém fala sobre isso na campanha, e raramente o tema é mencionado nas discussões sobre nossas perspectivas econômicas.

Lembrando que esse negócio vai somar cerca de US$ 2 trilhões à nossa dívida nacional. Ainda assim, parece ter sido um grande exemplo de rasgação de dinheiro.