O mercado de títulos está berrando

A queda na rentabilidade de longo prazo mostra que os investidores vêm se tornado drasticamente menos otimistas quanto à economia.

Um velho ditado sobre a guerra diz que amadores falam de táticas, enquanto profissionais estudam logística. Um ditado semelhante sobre a economia seria que amadores falam de títulos, enquanto profissionais estudam o mercado de títulos. E, ultimamente, o mercado de títulos está contando uma história de pessimismo extremo.

Por que o mercado de títulos reflete as expectativas econômicas? Caso os investidores estejam à espera de um boom, eles também esperam que a diretoria do Federal Reserve tente tomar as rédeas dessa alta aumentando as taxas de juros de curto prazo (o que o Fed controla indiretamente, de certo modo), para evitar uma potencial inflação. A perspectiva de taxas de juros maiores no longo prazo acaba então levando a taxas de juros maiores no longo prazo, já que ninguém quer deixar dinheiro preso a uma baixa rentabilidade com os retornos subindo. Por outro lado, se os investidores esperam uma quebra, também imaginam que o Fed vá cortar juros, e vão para cima dos títulos de longo prazo para garantir rentabilidade enquanto puderem.

Ou seja, a queda na rentabilidade de longo prazo desde a última baixa, de um pico de 3,2% para 1,63% em 13 de agosto, mostra que os investidores vêm se tornado drasticamente menos otimistas quanto à economia. As taxas de longo prazo estão hoje notavelmente menores que as de curto prazo – e esse tipo de “inversão da curva de rentabilidade” no passado foi, de modo bastante convincente, algo que antecede uma recessão.

Os investidores de títulos podem estar errados, é claro – há gente por aí garantindo que nós estamos em uma bolha de títulos. E até aqui a economia real, medida pelo produto interno bruto, crescimento do emprego e coisas do tipo, tem se virado, aos trancos e barrancos. Mas, como eu disse, há uma onda de pessimismo clara varrendo o mercado. O que há?

Uma resposta é que, na última queda, muitos investidores estavam olhando para alguns pares de trimestres de crescimento em alta, e acharam que isso poderia ser o início de uma alta prolongada. Os economistas sérios alertaram que esse crescimento era uma alta temporária – um “pico de açúcar” -, causada pela mudança da austeridade fiscal para uma política de finanças tô-nem-aí. Só que ao menos algumas pessoas caíram na conversa trumpista de que os cortes de impostos produziriam uma alta duradoura nos índices de crescimento.

Desde então, porém, fica cada vez mais evidente que o estímulo provocado pelo corte de impostos foi de fato uma coisa pontual. Em especial, até agora não houve sinal algum da disparada prometida nos investimentos das empresas.

Ao mesmo tempo, a guerra comercial de Donald Trump talvez esteja começando a cobrar sua conta. Particularmente, a incerteza criada por ela pode estar segurando os investimentos das empresas. Se as novas tarifas podem prejudicar ou mesmo que ajudem seu negócio, faz sentido você adiar os planos de expansão por ora, até ver o que o presidente faz de fato.

Por fim, problemas econômicos no resto do mundo – várias economias grandes da Europa possivelmente estão em recessão – estão sendo canalizados de volta para os Estados Unidos.

Bom, a maioria dos economistas não está prevendo uma recessão aqui, e por boas razões. A verdade é que ninguém é muito bom em apontar o momento de virada da economia, e apontar uma recessão até ela ser realmente óbvia tem muito mais chances de fazer você ser chamado de Pedro (de Pedro e o Lobo) do que idolatrado como um profeta. (Confiem em mim, eu sei como é isso). Mas o mercado de títulos, que não se preocupa com tais coisas, está com uma cara visivelmente abatida. Vou deixar para vocês pensar nas possíveis consequências políticas disso.