O dilema comercial do Brexit de Theresa May

Inglaterra não poderia compensar perdas da saída da associação alfandegária obtendo um acordo realmente bom com os Estados Unidos

 

Ultimamente eu tenho escrito bastante sobre política comercial. Sei que há tópicos mais cruciais, mas receitas, e despesas, persistem. Além disso, para ser honesto, de certo modo eu estou escrevendo sobre temas comerciais como um tipo de terapia e de fuga, focando nas coisas que eu sei como uma pausa do noticiário político assombroso.

À medida que a crise autoprovocada do Brexit (autoprovocada com alguma ajuda de Vladimir Putin, ao que parece) vem à tona, parece útil tentar explicar alguns aspectos da economia envolvidos nela que deveriam ser óbvios – certamente são óbvios para muitos economistas britânicos – mas que não são, ao que parece, nem para os apoiadores do Brexit, muito menos para o público geral.

Estes aspectos explicam por que a primeira-ministra britânica, Theresa May, está tentando um Brexit “soft” ou até mesmo, como dizem alguns, um “BINO” (Brexit in Name Only, Brexit só no nome, em tradução literal da sigla em inglês), e por que a opção preferencial dos brexitistas, acordos comerciais com os Estados Unidos e talvez com alguns outros países para substituir a União Europeia, não vai muito longe.

Vejam, muitos dos argumentos a favor do Brexit eram mentiras, pura e simplesmente. Mas declarações sobre o comércio, tanto antes quanto depois da votação, podem discutivelmente ser entendidas como mal-entendidos em vez de desonestidade pura.

No mundo segundo os brexitistas, a Inglaterra não teria muito a perder deixando a União Europeia porque ela ainda pode negociar um acordo de livre comércio com o resto da Europa, ou, no pior cenário, encarar as tarifas baixas que a união impõe a outras economias de fora da UE. Enquanto isso, a Inglaterra consegue negociar acordos comerciais melhores em outros lugares, em especial nos Estados Unidos, que vão compensar quaisquer perdas do lado da UE.

O que há de errado com esta história? A primeira coisa a se entender é que a UE não é um acordo de livre comércio como o Nafta; é uma associação alfandegária, o que é significativamente mais forte e mais favorável ao comércio.

Qual a diferença? No Nafta, a maioria dos produtos mexicanos pode entrar nos Estados Unidos isenta de tarifas. Mas o México e os Estados Unidos não cobram as mesmas taxas nos importados de países terceiros. Isto significa que produtos mexicanos que entram nos Estados Unidos ainda terão de passar pela inspeção alfandegária, para garantir que são de fato bens mexicanos e não, por exemplo, mercadorias da China descarregadas no México e despachadas pela fronteira para escapar das tarifas americanas.

E na verdade é ainda pior que isso porque, afinal de contas, em que consiste um produto mexicano? O Nafta tem regras elaboradas sobre quanto de conteúdo mexicano é necessário para que a mercadoria se qualifique para a tarifação zero, e isso acrescenta um grande volume de burocracia e de atrito ao comércio.

Em contraste, a UE estabelece tarifas externas comuns, o que quer dizer que, uma vez que entrou, você está dentro: Assim que os produtos são descarregados em Roterdã, eles podem ser enviados de navio para a França ou a Alemanha sem inspeções alfandegárias posteriores, o que causa bem menos atrito.

E é do atrito, não das tarifas, que as empresas estão se queixando quanto mais o Brexit se aproxima. Por exemplo, a indústria automobilística britânica depende da produção “just-in-time”, mantendo inventários baixos de peças, porque ela tem conseguido contar com a chegada imediata de peças da Europa. Se a Inglaterra deixar a associação alfandegária, o risco de atrasos na alfândega tornaria isso inviável, aumentando substancialmente os custos.

Esse atrito é também o motivo de as estimativas de custo do Brexit serem comparáveis às estimativas sobre o custo de uma guerra de tarifas global, ainda que a redução prevista no volume de negociações seja muito menor.

Ainda assim, mesmo que deixar a associação alfandegária fosse custoso, a Inglaterra não poderia compensar isso obtendo um acordo realmente bom com a América de Donald Trump? Não.

Com certeza os Estados Unidos não poderiam oferecer reduções tarifárias altamente valiosas, pelo simples motivo de que as nossas tarifas sobre os produtos da UE – do mesmo modo que as tarifas da UE sobre os nossos produtos – já são bastante baixas. Você pode encontrar exemplos de tarifas elevadas, como a nossa taxa de 25% sobre os caminhões leves, mas em geral não existe muita coisa com que dê pra contar.

E quanto a uma associação alfandegária Inglaterra-EUA? Isto seria tremendamente problemático, entre outras coisas porque, dada a assimetria em seu tamanho, a Inglerra estaria efetivamente dando a Washington controle total sobre a política dela. Além disso, nenhum acordo com os Estados Unidos poderia valer tanto quanto associação alfandegária da Inglaterra com os vizinhos dela, por causa da gravidade.

O quê? Uma das relações mais consolidadas na economia é a assim chamada equação da gravidade do comércio entre qualquer dupla de países, que diz que o volume de negócios depende positivamente do tamanho das economias dos dois países, mas negativamente da distância entre eles. Você pode notar isso com muita clareza nas exportações britânicas. O ponto é que, embora a América ofereça um mercado comparável em tamanho ao da UE, , ela está muito mais distante, de modo que mesmo que a Inglaterra conseguisse fechar um acordo incrível com a América, não seria tão bom quanto a associação alfandegária que a Inglaterra tem.

Tudo isso explica por que a Sra. May está tentando negociar um acordo que mantenha a associação alfandegária intacta. Mas isso, é claro, não é exatamente uma saída. Bruxelas ainda estabeleceria a política comercial da Inglaterra, exceto pelo fato de que a Inglaterra não teria mais voto. Ou seja, qual foi, então, o ponto do Brexit, para começar?

Boa pergunta. Pena que mais gente não se perguntou isso antes do referendo.

 

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