O ataque das galinhas sem cabeça

O noticiário econômico americano não está tão ruim agora, mas Trump e seu círculo mais próximo agem como se o céu estivesse desabando

Uma das frases preferidas dos meus pais sobre quando alguém estava em pânico era “Ele saiu correndo como uma galinha sem cabeça”. Como um garoto criado nos subúrbios, não faço a menor ideia se de fato galinhas sem cabeça saem correndo. Mas a frase parece adequada para descrever o presidente Trump e as autoridades econômicas dele nos últimos dias.

Note-se, o noticiário econômico não é tão ruim assim, pelo menos até agora. O crescimento está diminuindo, provavelmente para algo em torno dos 2%, a produção está em queda, e o déficit comercial está ficando maior, e não menor. Porém, isso de modo algum significa que nós estejamos caminhando para uma recessão de fato. Os mercados de títulos estão acenando com um cenário sombrio, mas a situação não se parece ou dá a impressão de ser qualquer coisa remotamente semelhante a, digamos, o começo de 2008, e muito menos o caos do fim de 2008.

Só que Trump e seu círculo mais próximo estão agindo – para misturar minhas metáforas galináceas – como se o céu estivesse desabando. Trump está reagindo com fúria ao que considera um complô para pegá-lo. Ele tem acusado a diretoria do Federal Reserve de sabotar a alta dele, ainda que as taxas de juros estejam na prática muito menores do que o governo previa em suas projeções cor-de-rosa do ano passado. Trump também vem culpando os democratas que, diz ele, estão “tentando ‘querer’ que a economia vá mal”.

Falar nisso, é novidade para mim que políticos de oposição possam empurrar a economia para baixo apenas com a força do pensamento negativo. Como o termo “economia vudu” já tem dono, sugiro que nós chamemos isso de “economia da praga”.

Seja como for, Trump e cia. estão se debatendo. Ele está exigindo um alívio drástico na política econômica do Fed, em um nível que normalmente só acontece quando a economia está sem dúvida rumando para uma recessão. Na terça-feira, Trump confirmou que estava cogitando “várias reduções de tarifas”, incluindo um corte nos impostos salariais para estimular as despesas de consumo colocando mais dinheiro nas mãos dos trabalhadores, embora ele tenha recuado da proposta na quarta-feira.

O que chama a atenção nessas propostas não é só o pânico evidente que elas revelam. É o reconhecimento implícito de que o pensamento econômico republicano esteve errado esse tempo todo.

Alguns leitores talvez lembrem dos ataques furiosos do Partido Republicano ao Fed por buscar uma política de dinheiro fácil em meados de 2010 e 2011, quando a economia precisava desesperadamente de um estímulo diante do desemprego em alta. Tais políticas econômicas, afirmavam as lideranças republicanas, levariam a inflação e “rebaixariam” o dólar. Agora Trump está cobrando políticas econômicas semelhantes, ainda que o desemprego continue em uma baixa histórica.

Os republicanos também denunciaram e ridicularizam os esforços de incentivo fiscal do governo Obama, que incluíam cortes nos impostos salariais com o objetivo de aumentar a renda dos trabalhadores e levar a um aumento das despesas de consumo. O corte de impostos de Trump de 2017 basicamente passou por cima do trabalhador comum, proporcionando em vez disso grandes cortes de impostos para empresas, com o argumento de que esses cortes seriam redistribuídos até chegar à classe média. Agora o governo Trump está basicamente admitindo que essa divisão não está acontecendo e que um incentivo à la Obama é de fato a melhor coisa a se fazer.

Até onde eu sei, não acho provável que qualquer uma dessas medidas desesperadas vá acontecer num futuro próximo. O Fed não está com cabeça para ser intimidado por um presidente que ele, o Fed, crê que está prejudicando a economia com sua guerra comercial. Além disso, embora os democratas possam apoiar um corte claro no imposto sobre os salários voltado de fato para os trabalhadores, meu palpite é que os republicanos não serão capazes de resistir à tentação de engordar as propostas com mais bondades para os ricos.

E talvez nada disso seja necessário. Nós não sabemos de verdade se uma recessão está a caminho. Porém, caso esteja, nós já sabemos como o governo vai responder: com pânico cego.