Há vários jeitos de se chegar à cobertura médica universal nos EUA

Propostas de um novo modelo de sistema de saúde dominam o debate democrata antes das eleições norte-americanas de 2020

Neste momento nós estamos na época de bobajadas do processo de primárias do Partido Democrático – um período, receio, que pode durar até a indicação. Há muitas exceções honrosas, mas um volume bastante grande da cobertura parece genérico; não é sobre os candidatos, muito menos sobre as propostas deles, mas sim sobre as visões dos especialistas sobre as visões que os eleitores têm da elegibilidade dos candidatos. É um debate em que essencialmente ninguém faz a menor ideia do que está falando.

Enquanto isso, porém, há alguns debates reais sobre a continuidade de algumas políticas econômicas. Eles não são essencialmente sobre metas: quem quer que os democratas indiquem vai jurar lealdade a uma agenda progressista focada em diminuir a desigualdade, fortalecer a rede de bem-estar social e tomar atitudes sobre as mudanças climáticas. Mas existem algumas diferenças grandes entre os candidatos sobre como cumprir essas metas.

E a divisão mais acirrada envolve a cobertura de saúde. É quase certo que uma eventual plataforma democrática vá defender “Medicare para Fulanos”. Que palavra será eventualmente escolhida para substituir o genérico “Fulanos”, e mais importante, o que isso significa em termos de políticas reais, vai ser crucial tanto durante as eleições gerais quanto para o que virá depois caso os democratas vençam.

De um lado, há o “Medicare para Todos”, que com o tempo veio a querer dizer a posição de Bernie Sanders: substituir completamente o sistema de convênios médicos existente nos EUA por um programa nos moldes do Medicare em que o governo paga diretamente a maioria das despesas médicas.

Do outro lado, há o “Medicare para a América”, originalmente uma proposta do apartidário Centro para o Progresso Americano, hoje incorporada na legislação. Embora nenhum dos candidatos democratas anunciados tenha declarado apoio a essa proposta até agora, é bem provável que a maioria deles vá chegar perto de algo parecido.

A maior diferença entre esse plano e um à la Bernie Sanders é que as pessoas poderiam ter convênios médicos particulares se quisessem – mas elas ou seus patrões também teriam a opção de aderir a uma versão melhorada do Medicare, com subsídios significativos para famílias de baixa e média renda. A coisa mais importante que você precisa saber sobre esses planos rivais é que os dois dariam conta do recado.

Muitas pessoas entendem, eu imagino, que nós somos o únicos país desenvolvido que não garante uma cobertura mínima de saúde para seus residentes legais. Meu palpite é que ainda menos gente compreende que os países cumprem esse objetivo de várias maneiras – e todas elas funcionam.

A cada dois anos o Fundo da Commonwealth, uma fundação americana privada, divulga uma pesquisa valiosa sobre os sistemas de saúde dos principais países. A América sempre aparece em último; na última edição, os três líderes foram Inglaterra, Austrália e Holanda.

O que é notável nos três primeiros é que eles têm sistemas radicalmente diferentes. A Inglaterra tem uma medicina socializada de verdade: fornecimento direto de saúde pública pelo governo. A Austrália tem o pagador único – basicamente o Bernie deles. Já os holandeses dependem de empresas privadas de seguros – reguladas fortemente, com vários subsídios, mas que lembram mais uma versão melhor financiada do Obamacare do que um Medicare para Todos. E a Holanda efetivamente lidera o ranking do Fundo da Commonwealth.

Ou seja, que sistema os democratas deveriam defender? A resposta, eu diria, é o sistema que é mais provável nós criarmos de fato – aquele que vai funcionar melhor nas eleições gerais e que tem mais chances de ser aprovado no Congresso se os democratas ganharem.

Fora isso, há uma grande pedra no meio do caminho, que qualquer estratégia realista de saúde pública precisa administrar: 156 milhões de americanos, quase metade da população do país, têm hoje convênio médico fornecido por seus empregadores. E a maioria dessas pessoas está razoavelmente satisfeita com a cobertura dos planos que têm.

Um plano Medicare para Todos efetivamente diria a essas pessoas: “vamos acabar com seu convênio atual, mas confie em nós, o que irá substituí-lo vai ser melhor. Nós também vamos impor uma série de impostos novos para bancar isso tudo, mas confie na gente, vai ser menos do que você e seu empregador pagam hoje em prêmios.”

O ponto é que essas duas afirmações podem muito bem ser verdade! Um sistema simples de pagador único provavelmente teria custos menores de maneira geral do que um sistema híbrido que preservasse alguns tipos de convênios particulares.

Mas mesmo que as afirmações otimistas sobre o Medicare para Todos sejam verdade, será que as pessoas vão acreditar nelas? Ainda que a maioria o faça, se uma minoria significativa dos eleitores não confiar nas promessas dos defensores do sistema de pagador único, isso poderia facilmente desgraçar os democratas na eleições gerais ou, no mínimo, tornar impossível o plano deles passar no Congresso.

Nesse caso, para mim, o Medicare para a América, que permite às pessoas manterem os convênios de suas empresas, parece uma aposta muito melhor para se chegar à cobertura universal do que o Medicare para Todos. Mas eu posso estar errado. E não tenho nenhum problema em passar os próximos meses discutindo o assunto.

O que vai ser um problema é se os ativistas fizerem da posição convênio-particular-zero um cavalo de batalha, afirmando que qualquer um que defenda uma abordagem mais incremental não é progressista de verdade, ou talvez seja um fantoche corrupto a serviço do complexo médico-industrial. Como vocês devem imaginar, minhas dúvidas não vêm do nada; são coisas que eu já venho escutando.

Portanto, os democratas deveriam tentar transformar isso em um debate de verdade, sobre a melhor estratégia para conseguir atingir uma meta comum. Eles conseguem fazer isso? Desconfio que vamos descobrir.

Uma versão deste artigo foi publicada no dia 22 de março de 2019, na página A23 da edição de Nova York do The New York Times.