Então você quer guerra cambial

Embora a manipulação cambial seja ilegal pelo que estabelecem os acordos internacionais, não existe um remédio claro para ela.

Na segunda-feira à noite, o Tesouro dos Estados Unidos designou a China como uma manipuladora cambial. Para aqueles de nós que acompanham essas coisas, isso foi profundamente irônico.

Afinal, o Tesouro ficou com vergonha de falar sobre a política cambial da China em 2010, quando a acusação era de fato verdadeira, e a desvalorização intencional da moeda chinesa, o iuane, estava de fato causando problemas em um período de desemprego em massa. Até onde eu conseguia enxergar – e eu estava conversando com gente que tinha informação do lado de dentro naquela época -, o governo Obama decidiu que acusar a China de jogo sujo, embora fosse correto, teria sido contraproducente.

Uma vez que, embora a manipulação cambial seja ilegal pelo que estabelecem os acordos internacionais, não existe um remédio claro para ela. O governo Obama, portanto, temeu a possibilidade de se ver diante de uma escolha desagradável: parecer ineficaz ao acusar a China de pecar, e depois não fazer nada a respeito, ou de responder com tarifas que poderiam dar início a uma guerra comercial destrutiva.

Hoje as coisas são muito diferentes. A essa altura, a política cambial da China é na verdade até que benigna; no mínimo, essas políticas são o que está mantendo o iuane mais forte do que estaria de outra maneira. Enquanto isso, o desemprego nos Estados Unidos é baixo. Há muitas coisas para se criticar na China, mas a política cambial não é uma delas. Com uma mira infalível, o governo Trump decidiu acusar a China do único crime da qual ela é inocente. Claro que esse governo não precisa ter medo de dar início a uma guerra comercial, uma vez que já fez isso.

Vamos voltar atrás um minuto. O que sequer significa manipulação cambial? Moedas não são mercadorias como grãos de soja ou gás natural, que têm preços “naturais” definidos pela oferta e demanda. Em vez disso, nós vivemos em um mundo de câmbios “por decreto” criado pelos governos; a oferta de dólar é a que a diretoria do Federal Reserve disser que tem de ser. Se por qualquer razão que seja um governo decide mudar a oferta de dinheiro, o preço daquele dinheiro irá mudar, mas isso não é manipulação em nenhum sentido que se possa atribuir à palavra.

Ou seja, o que se quer dizer quando alguém fala em manipulação cambial é algo um tanto sutil. E se refere às ações que os governos tomam para manter suas moedas fracas de modo a obter uma vantagem competitiva. E a China estava fazendo isso em 2010: ela vinha comprando dólares para manter fraco o seu próprio câmbio, além de impor controles para impedir os estrangeiros de investir muito dinheiro na China, o que teria causado uma alta do iuane.

Desde 2013, porém, a China vem fazendo mais ou menos o contrário: de modo geral, vendendo dólares, ao mesmo tempo em que impõe controles na capacidade de seus próprios moradores de mandarem dinheiro para fora do país. Até onde a China tem manipulando o câmbio dela, ela o está fazendo para manter o iuane alto, não baixo.

O que a China fez na segunda-feira foi relaxar levemente seu apoio ao câmbio, permitindo que ele ficasse abaixo do nível simbolicamente importante de 7 iuanes para um dólar. Logo, os Estados Unidos estão chamando a China de manipuladora cambial porque, que coisa, ela parou de intervir para manter a moeda dela alta.

Sem dúvida, a lógica econômica tem muito pouco a ver com qualquer coisa aqui. O presidente Trump quer é que a China faça concessões visíveis diante das tarifas impostas por ele; já a China deixou o câmbio dela baixar um pouco para sinalizar que não vai ser intimidada. Basicamente, foi o jeito dela de dizer “Sanções para mim? Negativo, são para você!”

Isso não deve acabar bem.