Disputando contra um homem mau

A grande incógnita da eleição de 2020 é se os candidatos democratas conseguirão oferecer propostas que agradem ao eleitorado enquanto atacam publicamente a figura de Donald Trump

A grande maioria dos americanos considera Donald Trump inapto para a presidência. Uma multidão considera os tuítes recentes dele racistas; metade acredita que a campanha dele à presidência em 2016 foi coordenada com a Rússia. É legítimo dizer que a maioria dos americanos vê o presidente Trump como alguém bastante vil.

A pergunta para os democratas é o que fazer sobre essa realidade. A verdade é que isso é algo muito menos relevante em termos políticos do se pode imaginar. A maioria das pessoas que considera Trump vil jamais teria votado nele de qualquer forma, e muitos dos eleitores restantes vai votar nele apesar de seu desgosto pessoal, porque eles odeiam mais os liberais.

Ainda assim, também seria errado dizer que a horripilância única de Trump é irrelevante. O índice de aprovação dele está notavelmente baixo considerando-se uma taxa de crescimento econômico de mais de 3% e um índice de desemprego abaixo de 4% nos EUA. Além disso, impressões sobre

o caráter de fato movem votos: o “escândalo” de e-mails de Hillary Clinton – sim, era falso, mas foi incessantemente alardeado pela imprensa e alimentado pelo mau comportamento do ex-diretor do FBI James Comey – quase com certeza fez virar a eleição de 2016.

Logo, como os democratas deveriam lidar com a eleição de 2020? Tenho visto um bocado de comentaristas dizendo aos democratas para não tornarem Trump o tema da eleição. Mas quem é mesmo que está fazendo isso? Durante a campanha, os principais candidatos progressistas raramente falam sobre ele; a senadora Elizabeth Warren, por exemplo, passa a maior parte do tempo apresentando suas propostas para a política econômica. O único pré-candidato de peso que de fato parece ter ataques a Trump como o centro de sua campanha é Joe Biden, o ex-vice-presidente.

Por outro lado, tratar essa campanha como se ela não tivesse nada a ver com Trump – ou seja, normalizando-o – sem dúvida seria uma bobagem. Talvez apenas uma pequena porcentagem do eleitorado possa ser convencida por lembretes de que um homem horrível está na Casa Branca, mas essa minoria poderia facilmente ser a margem da vitória.

A questão é como equilibrar essas preocupações; e isso cabe mais à líder da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, e não aos candidatos à presidência dos EUA. Acho que eu sei por que Pelosi não está levando adiante o processo de impeachment de Trump, embora ela saiba tão

bem quanto qualquer outra pessoa que ele merece muito ser deposto: ela provavelmente não tem os votos necessários, mesmo na Câmara, e não quer dar a Trump nada que ele possa chamar de vitória. Por outro lado, é um mistério por que os parlamentares democratas têm se mostrado tão

desmotivados em investigar os escândalos múltiplos de Trump – além de sua declaração de imposto de renda!

Ao mesmo tempo, os democratas precisam vender a pauta deles de política econômica. Em sua maioria, preocupações de que eles estejam indo demais para a esquerda são exageradas, ao que me parece: quem é de centro pode até ficar horrorizado com as propostas de aumentar impostos dos ricos e de ampliar benefícios sociais, e talvez essas pessoas imaginem que o país como um todo compartilha do horror deles. Mas as pesquisas de fato mostram que tais propostas são altamente populares.

A única coisa que me preocupa é a pressa em querer adotar uma versão purista do Medicare para Todos que acaba com os planos de saúde privados. Para mim, isso parece um risco político desnecessário em um tema no qual os democratas já têm uma enorme vantagem implícita, uma vez que há maneiras menos turbulentas de se conseguir uma cobertura universal de saúde. Os democratas conseguem andar e mascar chiclete ao mesmo tempo? Eles conseguem fazer campanha com base apenas no que os americanos querem, como garantia de acesso à saúde pública, e ao mesmo tempo lembrar os eleitores de que uma pessoa horrível ocupa a Casa Branca? O destino da república pode depender dessa resposta.