A perversidade da negação climática

A negação climática segue os passos dos primeiros negacionistas da ciência, a começar pela longa campanha das empresas de tabaco para confundir o público sobre os perigos de fumar

O governo Trump, desnecessário dizer, é profundamente anticientífico. Na verdade, ele é antirrealidade objetiva. Mas o controle dele sobre o governo continua limitado; ele não conseguiu se estender longe o bastante para impedir a divulgação, no final de novembro, da última Avaliação Nacional do Clima, que detalha os impactos atuais e projeções futuras do aquecimento global nos Estados Unidos.

É verdade que o relatório foi divulgado durante uma Black Friday, claramente na expectativa de que se perdesse na correria do feriado. A boa notícia é que o plano não deu certo.

O relatório basicamente confirma, com uma fartura de detalhes adicionais, o que qualquer um que acompanhe a ciência do clima já sabia: Que as mudanças climáticas oferecem uma grande ameaça ao país, e que alguns de seus efeitos prejudiciais já se fazem sentir. Por exemplo, o relatório, escrito antes dos recentes desastres na Califórnia, destaca o risco crescente de incêndios no sudoeste; o aquecimento global, e não uma incapacidade de recolher as folhas caídas, é o porquê de os fogos estarem se tornando cada vez maiores e mais perigosos.

O governo Trump e seus aliados no Congresso irão, sem dúvida, ignorar esta análise. Negar as mudanças climáticas, não importa quais sejam as evidências, tem se tornado um princípio republicano fundamental. Além disso, vale tentar entender como isso aconteceu e a pura depravação envolvida em ser um negacionista a essa altura.

Mas calma aí, será que depravação não é uma expressão muito forte? As pessoas não podem discordar da sabedoria convencional, mesmo que essa sabedoria seja fundamentada em amplos consensos científicos?

Sim, elas podem, desde que os argumentos delas sejam feitos de boa-fé. Só que quase não existem negacionistas das mudanças climáticas de boa-fé. E negar a ciência em nome de lucros, vantagens políticas ou satisfação do ego não é ok; quando um fracasso em agir com base na ciência pode ter consequências terríveis, a negação é, como eu disse, depravada.

O melhor livro que eu li sobre tudo isso recentemente foi “The Madhouse Effect” (“O efeito manicômio”, em tradução livre do inglês), de Michael E. Mann, um dos principais cientistas do clima, com ilustrações de Tom Toles. Como explica o Sr. Mann, a negação climática na verdade segue os passos dos primeiros negacionistas da ciência, a começar pela longa campanha das empresas de tabaco para confundir o público sobre os perigos de fumar.

A verdade chocante é que, na década de 50, essas empresas já sabiam que fumar provocava câncer de pulmão; mesmo assim, elas gastaram grandes quantias para incentivar a impressão de que houvesse uma verdadeira controvérsia quanto a essa relação. Em outras palavras, elas estavam cientes de que o produto delas estava matando pessoas, mas tentaram impedir que o público entendesse o fato para poderem continuar a ganhar dinheiro. Isso se enquadra na categoria de depravação, certo?

Em muitos sentidos, o negacionismo climático se parece com a negação do câncer. Empresas com um interesse financeiro que as motiva a confundir o público – neste caso, empresas de combustíveis fósseis – são a força motora. Até onde eu consigo ver, cada um dos diversos cientistas renomados que tem expressado ceticismo quanto às mudanças climáticas recebeu grandes quantias dessas empresas, ou de conduítes de dinheiro obscuro como o DonorsTrust; o mesmo conduíte, por sinal, que apoiou Matthew Whitaker, o novo procurador-geral interino, antes dele entrar para o governo Trump.

Só que a negação climática têm raízes políticas ainda mais profundas que a negação do câncer jamais teve. Na prática, você não consegue ser um republicano contemporâneo com boa reputação a não ser que negue a realidade do aquecimento global, afirme que ele tem causas naturais ou insista que nada pode ser feito sobre isso sem destruir a economia. Você também tem de aceitar ou se conformar com afirmações tresloucadas de que a grande maioria das evidências sobre mudanças climáticas é uma farsa, e que foi fabricada por uma ampla conspiração global de cientistas.

Por que alguém concordaria com coisas assim? A principal resposta ainda é o dinheiro: Quase todos os negacionistas climáticos de destaque estão no bolso do setor de combustíveis fósseis. Contudo, ideologia também pesa na conta: Se você leva assuntos ambientais a sério, logicamente que você é levado à necessidade de regulação governamental de alguma maneira, de modo que os ideólogos mais rígidos do livre-mercado não querem acreditar que as preocupações ambientais sejam reais (ainda que aparentemente forçar consumidores a subsidiar o carvão seja ok).

Por fim, tenho a impressão de que existe um elemento de pose de cara durão envolvida aí. Homens de verdade não usam energias renováveis, ou alguma coisa assim.

E estes motivos importam. Se os atores que fazem diferença se opusessem à ação climáticas por uma questão de desacordo de boa-fé com a ciência, seria uma vergonha mas não um pecado, e algo que exigiria esforços melhores de persuasão. Do jeito que está, porém, a negação climática se baseia em ganância, oportunismo e ego. E se opor a tomar uma atitude por esses motivos é um pecado.

Sem dúvida, é depravação, e em uma escala que faz a negação do câncer parecer banal. Fumar mata pessoas, e as empresas de tabaco que tentaram confundir o público sobre esta realidade estavam sendo más. Mas as mudanças climáticas não estão só matando pessoas; elas podem muito bem acabar com a civilização. Tentar confundir o público sobre isso é mau de um jeito totalmente diferente. Será que nenhuma dessas pessoas tem filhos?

E sejamos claros: Ainda que Donald Trump seja um exemplo perfeito da depravação da negação climática, este é um tema sobre o qual o partido dele inteiro foi para o lado negro anos atrás. Os republicanos não têm só más ideias; a essa altura, eles necessariamente são pessoas más.

(Uma versão deste artigo apareceu impressa na edição de Nova York do The New York Times do dia 27 de novembreo de 2018.)

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