Por que a democracia está tropeçando, dos EUA ao Brasil

A frustração de grandes segmentos da população criou um terreno fértil para o tribalismo, que políticos como Trump e Bolsonaro têm avidamente explorado

NOVA YORQUE – Jair Bolsonaro, forte candidato à Presidência do Brasil, é um exagerado nacionalista de extrema direita, favorável às armas e extremamente midiático. O fato de que ele estaria muito à vontade ao lado dos líderes globais de hoje – incluindo aqueles de algumas das principais democracias do mundo – deveria preocupar a todos nós. Isso nos leva a abordar a questão: por que a democracia está tropeçando?

Estamos vivendo um momento histórico decisivo. O rápido progresso tecnológico, particularmente o surgimento da tecnologia digital e da inteligência artificial, está transformando a maneira como funcionam nossas economias e sociedades. Embora essas tecnologias vêm trazendo importantes ganhos, elas também levantaram sérios desafios – e deixaram muitos segmentos da população com sentimentos de vulnerabilidade, ansiedade e raiva.

Uma consequência do recente progresso tecnológico tem sido um declínio da participação relativa dos salários no PIB. Como relativamente poucas pessoas tem reivindicado um pedaço crescente do bolo, traduzido por aluguéis e rendimentos, a crescente desigualdade de riqueza e renda alimentou a frustração generalizada com os arranjos econômicos e políticos existentes.

Foi-se o tempo em que se podia contar com um emprego fixo de fábrica para pagar as contas a vida inteira. Com máquinas desempenhando tarefas outrora de alto salário, as empresas estão procurando cada vez mais trabalhadores altamente qualificados em áreas que vão da ciência às artes. Essa mudança na demanda de habilidades está alimentando a frustração. Imagine que, após uma vida inteira treinando musculação, seja dito ao atleta que as regras foram mudadas e que a medalha de ouro não será concedida para essa modalidade, mas sim para o jogo de xadrez. Isso será revoltante e injusto. O problema é que ninguém faz isso deliberadamente; essas mudanças são o resultado do avanço natural da tecnologia. A natureza é muitas vezes injusta. O ônus de corrigir a injustiça cabe a nós.

Essas evoluções contribuíram para as crescentes desigualdades tanto na educação como nas oportunidades. Um histórico de mais riqueza tem melhorado muito as chances de uma educação superior e, portanto, empregos mais bem remunerados. À medida que o valor das habilidades mecânicas no mercado de trabalho diminui e a desigualdade de renda aumenta, essa diferença provavelmente se tornará cada vez mais acentuada. A menos que transformemos os sistemas educacionais para garantir um acesso mais equitativo à educação de qualidade, a desigualdade se tornará cada vez mais acentuada.

O crescente sentimento de injustiça que acompanha esses desenvolvimentos enfraqueceu a “legitimidade democrática”, como Paul Tucker discute em seu livro Unelected Power. Em nossa economia globalizada profundamente interconectada, as políticas de um país – tais como barreiras comerciais, taxas de juros ou expansão monetária – podem produzir efeitos colaterais de longo alcance. Os mexicanos, por exemplo, não precisam apenas se preocupar com quem irão eleger para presidente; eles também precisam se preocupar com quem detém o poder nos Estados Unidos – resultado sobre o qual eles não têm nenhuma influência.

Nesse sentido, a globalização leva naturalmente à deterioração da democracia.

Nesse contexto, a transformação contínua da política não deveria ser surpresa. A frustração de grandes segmentos da população criou um terreno fértil para o tribalismo, que políticos como Trump e Bolsonaro têm avidamente explorado.

A economia convencional tem como base a suposição de que os seres humanos são motivados por determinadas preferências externas – o que os economistas chamam de “funções de utilidade”. Embora os pesos relativos possam ser diferentes, todos os indivíduos querem mais e melhores alimentos, roupas, moradia, lazer e outras experiências.

O que essa interpretação não explica são os “alvos criados” que surgem à medida que seguimos pela vida. Ninguém nasce com o impulso primordial de chutar a bola para dentro do gol. Porém, uma vez que se começa a jogar futebol, fica-se obcecado com isso. Não se faz isso por mais comida, roupas ou uma casa nova. Isso se torna uma fonte de alegria em si. Este é o alvo criado.

Tornar-se um fã de esportes é a mesma coisa. Ninguém é essencialmente torcedor do Real Madrid ou dos New England Patriots. Mas, através da família, da geografia ou da experiência, pode-se ficar profundamente ligado a uma determinada equipe esportiva, a ponto de se tornar uma espécie de identidade tribal. Um fã apoiaria os jogadores não por causa de como eles jogam, mas por causa do time que eles representam.

É essa dinâmica que alimenta o tribalismo na política atual. Muitos dos que apoiam Trump ou Bolsonaro não o fazem por causa do que Trump ou Bolsonaro realizarão, mas sim por causa de sua identidade tribal. Eles criaram metas relacionadas a fazer parte do “Time Trump” ou “Time Bolsonaro”. Isso prejudica a democracia ao dar aos líderes políticos uma licença que eles não tinham antes. Eles podem fazer o que quiserem sem serem contidos pela vontade do povo.

No curto prazo, não está claro como podemos corrigir esses problemas, proteger os vulneráveis e restaurar a legitimidade democrática. O que está claro é que os negócios, como de costume, não a eliminarão.

A Revolução Industrial – outro importante momento decisivo da humanidade – trouxe mudanças gigantescas nas regulamentações e leis, desde as várias Leis Trabalhistas no Reino Unido até a implementação do imposto de renda em 1842. Também trouxe o nascimento da economia moderna, com grandes avanços por parte de pessoas como Adam Smith, Augustin Cournot e John Stuart Mill.

Mas estamos vivendo uma conjuntura histórica em que o tema da economia política merece ser repensado. O dinossauro não tinha capacidade de autoanálise e acabou por ser extinto há 65 milhões de anos. Nós também corremos o risco de um colapso civilizacional. Mas, felizmente, somos a primeira espécie com capacidade de autoanálise. Aí reside a esperança de que, apesar de todo o tumulto e conflito que vemos ao nosso redor, acabaremos por evitar o “risco dos dinossauros” e nos afastaremos da beira do abismo.

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