O poder, as massas e Shakespeare

Joel Pinheiro da Fonseca

A longa tradição de filosofia ocidental nos legou um rico arcabouço teórico para tratar do Estado, sua essência e sua origem, das formas de organização da política, suas degenerações e justificativas, prós e contras. Foi dessa tradição que herdamos também alguns dos conceitos mais importantes que norteiam nossos ideais para a política: as noções de bem comum, de leis, de direitos individuais, de liberdade e igualdade, de soberania.

Mas a nossa filosofia tem uma grande lacuna, preenchida por poucos: ela sempre ficou no nível do ideal. Seja ao descrever abstratamente a estrutura do poder, ou ao propor critérios normativos para distinguir o que ele deve ou não fazer, poucos autores se aventuraram à pergunta central: o que o poder efetivamente faz; quais exigências ele impõe sobre aqueles que querem conquistá-lo ou mantê-lo?

É um tipo de investigação que invariavelmente sacode qualquer idealismo e que, uma vez iniciada (entre nós, ocidentais cristãos) por Maquiavel, encontrou seu meio preferencial mais na literatura do que no pensamento abstrato. E não perde sua capacidade de chocar. Mesmo nós – que deveríamos ser escolados nos malfeitos do poder – ficamos chocados com os atos de um Frank Underwood em House of Cards ou com as gravações de nossos ilustres representantes, invariavelmente envolvidos em trocas “pouco republicanas”.

Quem melhor soube traduzir para a arte esse lado obscuro das relações de poder humanas foi ninguém menos que o maior dramaturgo da história: William Shakespeare. Shakespeare esteve nas notícias recentemente justamente pela sua intersecção com a política: uma montagem da peça Júlio César no qual o “imperador” (César nunca foi formalmente imperador, mas uso para simplificar) tinha um grande topete muito similar a um certo presidente.

A polêmica ao redor da peça foi tola, culminando no fim do patrocínio empresarial para a peça, evidencia a degradação da cultura política do país, num clima de intimidação que nós brasileiros conhecemos bem. Uma montagem equivalente havia sido feita com o ex-presidente Barack Obama como Júlio César, sem nenhuma celeuma parecida. Mais obtuso do que isso, contudo, é o tomar o assassinato de Júlio César na peça como um ato inequivocamente bom. Shakespeare não cedia a esse tipo de simplismo.

Os conspiradores que matam César no meio da peça são, em sua maioria, crápulas da pior espécie. Deles, apenas um, Brutus, era um homem digno, que agiu motivado por sua convicção republicana a matar aquele que usurpava o poder do Senado para governar sozinho, com plenos poderes. Fora ele, os demais conspiradores, liderados por Cassius, são apenas homens sedentos de poder e inveja. Impossível não pensar em nosso (em breve, talvez, nossos) impeachment: a retirada de um líder transgressor efetuada por pessoas tão corruptas quanto.

Se repetirmos a peça, nosso futuro não é dos mais otimistas: os partidários de César, liderados por Marco Antônio, viram o jogo. Inicialmente, o povo – peça central de qualquer esquema político – festejou a morte do tirano e via nos conspiradores heróis libertadores do povo. Mas o povo é volúvel; a opinião pública não existe enquanto tal; ela é suscitada por apelos que vêm de fora, em geral da boca de manipuladores hábeis. Marco Antônio, em um discurso antológico, faz os romanos se questionarem: César era tão ruim assim? Não era ele, em verdade, quem realmente amava Roma? Não deu o sangue pela cidade? A memória da população em tempos de crise rapidamente se volta para tempos melhores, e aquela rejeição que julgávamos inviabilizar uma eleição logo se esvanece…

Brutus, o honrado – de verdade –, termina condenado e morto como o pior dos traidores. Ou se mergulha de cabeça no jogo, ou se será completamente destruído pelos adversários. Todo princípio é, ao mesmo tempo, uma fraqueza a ser explorada por alguém menos escrupuloso. Em outra peça de Shakespeare, Antônio e Cleópatra, é o próprio Marco Antônio que descobrirá que seu apego pelos prazeres da vida e o consequente afastamento da política foram erros letais, na hora de se confrontar com o jovem Otávio, filho adotivo de Júlio César e que se tornaria o maior imperador da história romana.

Os valores e crenças da população são jogos de palavras nas bocas de quem luta pelo poder. Construir uma narrativa, produzir amor ou ódio nas mentes, mostrar-se como melhor que os outros. Tudo aquilo que, na vida cotidiana, é indiscutivelmente condenado como desonestidade constitui o pão com manteiga da política.

O fato de vivermos em uma democracia com voto universal não muda absolutamente nada disso. Para Shakespeare, muito pelo contrário: ter que ser aceito pela massa produz um rebaixamento de caráter nos poderosos. Em Coriolano, a terceira peça de seu ciclo de tragédias históricas romanas, o general Coriolano, herói de guerra e cotado para ser cônsul de Roma (séculos antes de Júlio César) – e dotado de um caráter que condiz com a dignidade do cargo –, vê suas perspectivas arruinadas ao ser incapaz de mobilizar as paixões populares. Os tribunos da plebe – os reais democratas – são monstros morais que se preocupam apenas com intrigas e com a manipulação das massas, e não poupam esforços para destruir o general cuja virtude significaria o fim de seu poder.

As notícias do dia-a-dia em Brasília jamais perderão o poder de nos chocar. O colapso final da sociedade no caos anárquico será a única saída possível. Até lá, podemos nos consolar, e entender um pouquinho mais sobre o que move o mundo da política, com a obra imortal de Shakespeare. As intrigas do Congresso, no final, até ganham um quê de obras-primas.

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