Ignorar os riscos ambientais pode ser desastroso para os negócios

A pressão cada vez mais forte dos investidores, dos clientes e do público vem obrigando as empresas a se tornar mais amigáveis ao meio ambiente

As companhias estão despertando para os riscos de um planeta aquecido e poluído. Sob crescente pressão de investidores, clientes e ONGs, os CEO começam a perceber que terão que prestar igual atenção às mudanças climáticas quanto aos riscos tradicionais de negócios, como turbulências políticas ou concorrência.

Empresas de alimentos e bebidas estão particularmente em evidência por sua contribuição para o crescente descarte de plásticos. Ativistas do Greenpeace interromperam a reunião anual da Nestlé, dizendo que os plásticos de uso único estão poluindo aterros sanitários e oceanos, mostrando um vídeo com um fictício “chief plastics officer” da Nestlé, envolto em peixes mortos e lixo.

Mudanças climáticas estão até na agenda dos varejistas on-line. No maior movimento liderado por funcionários sobre este tema na indústria de tecnologia, mais de 4.000 empregados da gigante Amazon exigiram que a empresa assumisse compromissos claros para reduzir sua pegada de carbono em todas suas operações. Eles também insistiram para que a empresa parasse com os serviços de computação em nuvem desenhados para a indústria de petróleo, para encontrar e extrair mais combustíveis fósseis.

A crescente preocupação com questões ambientais inspirou um crescente movimento global de protestos estudantis, pressionando tanto governos quanto líderes empresariais. Desde 1970, os humanos eliminaram 60% dos mamíferos, aves, peixes e répteis, conforme relatório recente do WWF. Os cientistas dizem que estamos no meio da sexta extinção em massa, a primeira a ser causada por seres humanos. O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da ONU alertou que a temperatura média do planeta aumentará 1,5 grau Celsius até 2030, elevando o risco de secas extremas, incêndios, inundações e escassez de alimentos para centenas de milhões de pessoas. É decisivo que governos e as empresas a ajam mais rapidamente para enfrentar tais ameaças.

Governos e empresas reagem

Essa pressão crescente já se reflete em mudanças de legislação. O Parlamento Europeu aprovou uma lei proibindo uma série de produtos plásticos de uso único até 2021. O governo do Reino Unido anunciou um imposto sobre qualquer embalagem plástica que tenha menos de 30% de conteúdo reciclado, a partir de abril de 2022.

Líderes empresariais também estão trabalhando em amplas estratégias para tratar de riscos e impactos ambientais. Simples relatórios de sustentabilidade com vários compromissos voltados para redução das pegadas de carbono não são mais suficientes para satisfazer os stakeholders. Ao contrário, trata-se de mudar de uma economia linear, do tipo “pegue → faça → descarte” para algo mais disruptivo, circular, em que sistemas de pensamento devem garantir oferta, produção, distribuição, reciclagem e reutilização responsáveis em toda a cadeia de fornecimento.

Investidores valorizam desempenho ambiental, social e de governança corporativa

Com maior transparência, os investidores podem apoiar empresas que se movem rapidamente para enfrentar esses riscos e, ao mesmo tempo, manter outras sob observação.  A Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima, liderada por Michael Bloomberg, está desenvolvendo padrões voluntários e consistentes sobre riscos relacionados ao clima para contribuir na divulgação de dados de empresas para investidores, financiadores, seguradoras e outros stakeholders. O interesse por fundos mútuos que investem com base em questões ambientais, sociais e de governança vem crescendo. Ativos sob gestão nesse tipo de fundos atingiram US$ 1,05 trilhão no final de 2018 frente aos US$ 655 bilhões de 2012, de acordo com a Morningstar. A Europa é responsável pela maioria dos lançamentos de produtos e ativos sob gestão nesta categoria.

Compromisso empresarial para mudança

Um número crescente de empresas e investidores está reconhecendo que os negócios, com suas cadeias globais de fornecimento cada vez mais complexas, têm um papel importante a desempenhar na redução de riscos e devem atuar em conjunto para reduzir impactos no meio ambiente.

Vários exemplos recentes aumentam a esperança:

• O fundo soberano da Noruega, o maior do mundo com cerca de US$ 1 trilhão, anunciou que retirará recursos ganhos com investimentos em petróleo e gás e investirá algo ao redor de US$ 14 bilhões em projetos de energia limpa. Além disso, irá desinvestir de 134 empresas que atuam com petróleo e gás.

• A Maersk, a maior empresa de transporte naval do mundo, comprometeu-se recentemente a neutralizar 100% de suas emissões de carbono até 2050; e vem incentivando outras empresas de navegação e parceiros a adotar inovações que permitam fazer o mesmo.

• O Compromisso Global da Nova Economia de Plásticos, liderado pela Fundação Ellen MacArthur, estabeleceu uma meta de parar, na fonte, com o descarte de plástico e a poluição, aplicando os princípios da economia circular, e atraiu mais de 350 signatários. Em direção a uma maior transparência no uso de plásticos, grandes empresas como Carrefour, Coca-Cola, Colgate Palmolive, Mars, Nestlé, SC Johnson e Unilever divulgaram publicamente seus volumes anuais de embalagens plásticas. A cadeia americana de supermercados Trader Joe anunciou o compromisso de cortar cerca de 500 mil toneladas de plásticos de uso único em suas lojas.

É claro que ignorar os riscos ambientais não é mais uma opção para os negócios. O desafio é reagir rápido o suficiente com mudanças abrangentes nos modelos de negócios alinhadas com crescentes desafios ambientais e as demandas dos stakeholders.