Filiações partidárias no Brasil: mais do mesmo?

Pesquisas têm demonstrado que o eleitor quer um político novo que se coloque contra a corrupção; filiações seguem outra dinâmica

Não é a toa que o PT tem acirrado o discurso e se colocado contra o trabalho de investigação da Lava Jato, em curso desde 2014, e que conta com o apoio de 95% da população, segundo a pesquisa da Ipsos Public Affairs. A prisão e a investigação dos grandes líderes do partido, somando à perda do poder federal, provocou uma debandada de filiados. Mais de 22 mil pessoas saíram do PT de 2015 a 2017 para ingressarem em outros partidos. Esta análise foi feita com base nos dados disponíveis no TSE de filiação partidária durante esses anos de acirrada crise política, econômica e institucional no Brasil. Mas não foi apenas o PT que teve perdas, apesar de ser o partido que mais sofreu perdas para outras legendas. O DEM e o MDB também viram muitos de seus filiados migrarem para outros partidos. Foram mais de 15 mil emigrantes do DEM e mais de 13 mil do MDB, sempre em termos líquidos, já descontando os imigrantes recebidos de outros partidos.

A novidade é que o PSD, de Kassab, e o SD, de Paulinho, foram as legendas que receberam a maioria dos migrantes. É razoável supor que aqueles que saíram do DEM e do MDB busquem partidos com “ideologias parecidas” e interesses semelhantes para atuar, e foi de fato isso que ocorreu. Dos que migraram para o PSD, 12,8% foram oriundos do MDB e 11,3% do DEM, seguidos pelos outros partidos.

Embora o PT e o PSD possuam agendas e palanques bastante distintos, 5,4% dos ex-filiados do PT mudaram para o PSD. Mas a trajetória mais comum de ex-filiados do PT foi para partidos como PSOL, onde estão 21,2% dos ex-petistas, PDT, com 9,8%, e PSDB, com 9,7%. Esta última escolha ficou na frente até do PSB, que seria uma migração mais previsível, mas contou apenas com 7,2%. O PSDB, que não sofreu grande impacto negativo das investigações até o momento, recebeu mais de 16 mil migrantes de outros partidos entre 2015 e 2017.

Quando se analisa a taxa de filiados desde 1980, verifica-se que há picos e vales em torno dos calendários eleitorais. Em 2017, todos os partidos registraram mais filiações do que desfiliações, aumentando de tamanho, mas o número total de filiações no país foi o mais baixo desde a redemocratização. Essa queda certamente reflete a crise de representatividade e a insatisfação popular diante dos partidos políticos.

Os partidos com as maiores taxas de crescimento em 2017 (o saldo de filiações menos desfiliações em 2017 sobre o estoque anterior do próprio partido) foram o NOVO, com aumento de 54,9%, o PSOL, com 17,3%, e o SD, com 14,2%. Como são partidos mais novos e com menor acúmulo de filiados, a taxa fica mais sensível a qualquer influxo de filiações e, portanto, tende a se destacar mais. Em números absolutos, os maiores volumes de filiações em 2017 foram registrados por PSOL, SD e PSDB.

As pesquisas têm demonstrado que o eleitor quer um político novo, o outsider ou o político honesto que se coloca contra a corrupção, como resposta à crise de representatividade dos principais partidos, mas as filiações seguem outra dinâmica. Embora possam ser movidas por paixão política, em muitos casos estão associadas a chances ou expectativas de conexão com quem detém ou deterá poder, cargos e verbas. Os picos históricos de filiações no PSDB e no PT foram justamente após suas chegadas ao governo federal, em 1995 e 2003. O MDB, entretanto, não experimentou o mesmo desde o início do atual governo, que já nasceu impopular. Aparentemente, desta vez, muitas pessoas optaram por um canal alternativo de aproximação ao governo, filiando-se a outros partidos da base governista.

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