Dissecando o sucesso econômico de Trump

O sucesso econômico dos EUA se deve a Trump ou é herança de Barack Obama? Grupo de renomados economistas disseca a gestão econômica do presidente americano

Trecho de vídeo: De hoje em diante, vai ser só “América primeiro, América primeiro.”

Glenn Hubbard: É sempre difícil saber qual é o legado econômico de um presidente. Você não sabe até terminar o show. Se você teve sucesso no início, mas fracassou mais tarde, as pessoas lembram disso, e vice-versa.

Barry Eichengreen: O legado regulatório de longo prazo ainda será determinado, mas a política fiscal não funciona para trás.

Rana Foroohar: Ele será visto como alguém que colocou querosene em uma bolha de dívida empresarial já bastante estourada, e possivelmente será responsável pela próxima recessão.

Edmund Phelps: Em vez de bater na tecla da inovação, ele tem tentado proteger pessoas e manter o tipo de Estado sem graça, chato e controlado. Estado parado.

Angus Deaton: Acho que o legado econômico é trivial comparado ao ataque à democracia.

Narrador: Em 2016, o economista ganhador do Nobel Paul Krugman previu que a eleição de Donald Trump causaria a próxima recessão global. Ele não foi o único a fazê-lo. Muitos economistas, antes e depois da eleição de 2016, temiam a agenda América Primeiro, de Trump, que envolvia protecionismo comercial, restrições imigratórias e rejeição ao multilateralismo que poderiam fazer a economia entrar em parafuso. Até o momento, estes temores não se concretizaram. Pelo contrário, desde a posse do presidente Trump em janeiro de 2017, os Estados Unidos vêm desfrutando de um crescimento robusto, um mercado de ações em alta, aumento dos gastos dos consumidores e o menor desemprego em uma geração. Porém, muitos se perguntam até que ponto a economia de Trump é de fato herança do presidente Barack Obama.

Foroohar: É do Trump ou do Obama? Eu na verdade proporia uma terceira possibilidade e diria que é de Janet Yellen e Jay Powell, embora agora nós tenhamos de ver o que ele vai fazer. Mas, de fato, eu diria que nossa atual situação está muito ligada aos bancos centrais do mundo e em particular o Fed, que conduziu os últimos dez anos de flexibilização quantitativa, mantendo as taxas de juros baixas. Quero dizer que é por isso que eu acho que a maioria dos grandes economistas concorda que nós não acabamos em uma Grande Depressão.

Phelps: Eu vejo as coisas de um jeito um pouco diferente. Acredito que a recuperação acabou. Nós estamos recuperados, totalmente recuperados. Sem dúvida, há algumas mudanças estruturais que têm acontecido e que nós não gostamos de ver, mas não é algo com o qual Obama tenha a ver. Não acho que as políticas de Obama tenham criado possibilidades para Trump, ou mesmo fechado oportunidades. Trump está sozinho.

Eichengreen: Pode-se creditar Trump como tendo algum impacto positivo na confiança empresarial, embora me pareça que a análise que tem vindo da Casa Branca ultimamente tenha sido bastante exagerada.

Hubbard: Quase imediatamente depois das eleições, o mercado de ações subiu, sendo que a expectativa era que descesse, mas ele de fato subiu consideravelmente. Hoje mesmo ele está significativamente em alta. Mais importante ainda, as expectativas dos líderes de negócios mudaram ao ponto de que os empresários com quem eu tenho falado têm tido um impulso que não tinham antes. Sem dúvida, tudo isso depende de políticas de verdade e de um bom desempenho para se manter. Mas o crescimento tem sido bom.

Eichengreen: Mas eu acho que, essencialmente, o que nós temos visto é uma recuperação cíclica. Leva tempo para a política econômica refletir na economia. Ou seja, as políticas de um, dois anos atrás, só estão aparecendo agora, no crescimento econômico mais significativo.

Narrador: Se os primeiros dois anos ofereceram surpresa e confiança renovada, as preocupações quanto ao futuro estão aumentando.

Deaton: Além disso – é uma das coisas que as pessoas mencionam – o mercado de ações subiu muito, mas o mercado de ações é em parte um sintoma daquilo que me preocupa. Que, se você redistribuir a renda dos trabalhadores para o capital, o mercado de ações vá subir. Ou seja, para alguns, isto é uma medida de um grande sucesso econômico, e para alguns de nós, é justamente uma medida do contrário.

Foroohar: Este não é o momento de fazer o que o presidente Trump tem feito, que foi dar um grande corte tributário às empresas. Por isso é que nós temos visto esse tipo de crescimento turbo nos últimos trimestres. Porém, para mim isso é em muitos sentidos um pico de insulina que vai eventualmente acabar em desastre. Agora, a única pergunta com que eu acho que o presidente se preocupa é: isso vai acontecer antes ou depois das eleições de 2020?

Phelps: Não existe fundamento para pensar que Trump tenha dado início a uma nova década de crescimento significativamente mais acelerado. Até agora não há nenhuma evidência de algo assim. Mas creio que a coisa que me preocupa mais sobre Trump é que ele não entende que crescimento e bons empregos estão totalmente vinculados ao dinamismo da economia. Nós precisamos de uma economia dinâmica para ter inovação, para que tenhamos desafios e mudanças. Só que Trump não entende isso, e não tem feito nada neste sentido. Por isso eu estou com medo de que a economia continue a avançar sem qualquer direção mais firme. Sem qualquer noção de boas políticas.

Trecho de vídeo: Portanto, quando você está ganhando um salário mínimo, quando você não está ganhando dinheiro o bastante, você está pagando impostos.

Narrador: A economia dos EUA pode ter se recuperado da crise há uma década, mas pode-se chamar esta retomada de qualquer coisa menos igualitária. Uma parte significativa do quebra-cabeça que está faltando continua a ser o crescimento dos salários. Os benefícios do crescimento econômico geral têm ido em sua maioria para os shareholders e gestores corporativos, e não para as classes baixa e média. Apesar das pesquisas mostrarem que mais americanos se sentem confiantes com a economia, a maioria dos lares simplesmente não está vendo uma alta significativa em seu padrão de vida. De fato, a inflação média ajustou os salários para praticamente o mesmo valor que eles tinham há 40 anos. O governo Trump afirma que suas políticas vão beneficiar os trabalhadores, e não os que já são ricos. A lei fiscal que os republicanos aprovaram no fim de 2017, por exemplo, foi vendida como um benefício para a classe média. Nos anos seguintes, entretanto, as provas de que tenha sido isso são escassas. Será que o governo Trump vendeu uma promessa de vantagens para os americanos, inclusive muitos que estavam desesperados para acreditar no candidato em 2016?

Hubbard: Bom, alguns pontos: Eu, eu acho que a tributação sobre sociedades foi uma boa política tributária. Acredito que ela melhorou o clima para investimentos, produtividade e salários, e nós estamos vendo os salários crescendo. Parte disso é, sem dúvida, relacionado a um mercado de trabalho mais apertado, o que é bastante bom para os trabalhadores. Mas, na minha cabeça, o governo está deixando passar uma oportunidade para os trabalhadores pouco qualificados, muitos dos quais tinham votado no presidente Trump. Nós precisamos fazer mais no país, primeiro para ajudar as pessoas a se preparar para um emprego e mantê-lo, e, segundo, para apoiar o trabalho. No primeiro caso, eu estou pensando em um incentivo muito maior às escolas comunitárias e programas de treinamento. No segundo, em um Crédito Fiscal Relativo aos Rendimentos muito mais robusto, ou em estímulos salariais. Como meu colega Ned Phelps disse, nós temos de recompensar o trabalho.

Phelps: Nós precisamos de algumas lideranças novas. Precisamos de um bocado de gente que queira encorajar as pessoas a tentarem recapturar e reanimar a era nos Estados Unidos em que havia uma quantidade enorme de inovação. As pessoas pensam: “Ah, novas lideranças, talvez algo bom venha daí”. E aí você nota um nível de investimento mais otimista. Mas você não vê nenhum efeito real disso em termos de produtividade ou de taxas reais de remuneração.

Hubbard: Parte do problema da produtividade tem menos a ver com políticas fiscais e mais com o tempo que leva para tecnologias genéricas fazerem efeito na economia. O ganhador do Prêmio Nobel Bob Solow disse uma vez, em uma frase célebre, que “você vê produtividade em todo lugar, a não ser nas estatísticas sobre produtividade”, só que aí, quase que imediatamente depois dele dizer isso, a produtividade disparou durante quase uma década. Quando se trata de tecnologias genéricas, pode levar de 25 a até 40 anos. Nós vimos isso com a eletrificação, o sistema de combustão interna e a computação de mainframe. Hoje, é claro, nós estamos pensando em inteligência artificial, big data e coisas do tipo. É sempre complicado quando os economistas dizem “tenham paciência”, mas eu vou dizer “tenham paciência”. Tudo isso vai aparecer nas estatísticas da produtividade. Enquanto isso, porém, nós temos de fazer muito mais como nação para ajudar o trabalho de baixa remuneração.

Deaton: O Financial Times tinha uma estimativa de que a Apple recebeu US$ 59 bilhões da lei fiscal. Não está claro para mim por que a Apple, que até onde eu sei não emprega ninguém de verdade, vá criar empregos e aumentar salários por causa disso. Além do mais, se você examinar os rendimentos ou salários medianos, não vai estar olhando para as pessoas que foram prejudicadas de fato. Os salários medianos estão estagnados há 50 anos, dependendo de como você interpreta os números. Agora, se você olhar para os salários medianos das pessoas que não têm um diploma, por exemplo, estes têm caído consistentemente nos últimos 15 anos. Então, não é só estagnação. Na verdade, são perdas de fato, e eles estão em situação muito pior que os pais deles, além de verem seus filhos possivelmente em condições ainda piores que as deles. Eles não enxergam uma saída. Agora, eu não faço a menor ideia de por que a a lei fiscal vá ajudar essas pessoas.

Eichengreen: Creio que uma grande dúvida sobre o crescimento salarial seja: “Essas políticas são sustentáveis? A expansão vai continuar?” E está claro que nós não sabemos as respostas.

Foroohar: Se você examinar o que realmente está motivando o aperto salarial, (são) a globalização, as disrupções baseadas em tecnologia e uma bifurcação na economia. Portanto, você tem várias empresas grandes e produtivas criando um número menor de empregos. Você tem os setores da economia com necessidade maior de mão de obra – manufatura, saúde, educação – ficando para trás nos ganhos de produtividade. Você não vê os tipos de investimentos reais da Main Street (termo usado em contraponto a Wall Street e que designa os investidores individuais e da economia em geral) em educação e capacitação de mão de obra, além de investimentos no tipo de CapEx produtivo que de fato, com o tempo e não imediamente, permitirá àquelas empresas se tornarem mais competitivas, e fará os salários eventualmente aumentarem. Nós não fizemos isso. Nós desenvolvemos uma abordagem fortemente orientada ao consumidor, de baixo custo, de terceirização de empregos e de remuneração a Wall Street, e agora estamos colhendo os frutos disso.

Narrador: Presidentes têm tido historicamente mais influência nas tendências econômicas de longo prazo que nas flutuações de curto prazo. Muitos economistas acreditam que o estímulo do corte tributário do ano passado tenha calculado mal o timing. Isso quer dizer que demandas maiores causadas pelo corte de impostos, além das decorrentes do aumento de compras que antecipou as tarifas de importação, não vão continuar. Em vez disso, o foco tem mudado para a intenção do governo de desregulamentar grande parte da economia dos EUA. Mas será que o incentivo radical à desregulamentação vai estimular as perspectivas de crescimento de longo prazo, ou só botar a América a caminho de outro crash?

Eichengreen: O que nós queremos não é regulamentação ou desregulamentação, mas uma regulamentação inteligente. Nós queremos regulações que corrijam os fiascos e imperfeições do mercado. Se o que você quer é incentivar os gastos de capital no longo prazo, então remover regulamentações onde quer que você as veja pode ser a coisa certa a se fazer. Porém, se você quiser criar uma economia que seja resiliente a crises, sejam elas furacões ou a falência do Lehman Brothers, se você quiser uma economia em que você tenha uma distribuição justa da renda e dos recursos, então você vai querer adotar uma política fiscal que avance nestas metas. Você vai querer ter políticas regulatórias que façam o mesmo.

Deaton: O que eu quero dizer é que o que mais me preocupa no Sr. Trump é que ele é o presidente dos aproveitadores. Ele prometeu drenar o pântano. Mas tudo que ele tem feito atraiu todas os monstros para dentro do lamaçal. Ou seja, se você é um minerador ou um presidente da mineração, obviamente que você gosta de desregulamentação, mas essas desregulamentações vão matar pessoas. Elas não eram regulamentações arbitrárias que estavam lá para impedir a economia de crescer. Elas serviam para impedir que pessoas matassem pessoas. Se você olhar para a indústria farmacêutica, que está matando pessoas aos montes, a expectativa de vida está diminuindo. Ela tem caído há três anos seguidos para os brancos na América, a expectativa de vida ao nascer. Isso não vinha acontecendo desde a Primeira Grande Guerra e a epidemia de gripe. E isso se deve à busca tosca de lucros pelos laboratórios farmacêuticos, em particular, de lugares como a Purdue Pharmaceutical. Nem em um milhão de anos Trump vai impedir isso.

Faroohar: Considero a estratégia de desregulamentação realmente perigosa. Não é só porque eu acho que, especialmente no setor financeiro, desregulamentação no fim de um longo ciclo de recuperação é exatamente o que você não quer. Certo? Quer dizer, muitas instituições financeiras estão buscando ganhos. Você tem uma concentração crescente de poder. Você tem problemas de monopólio que muitos economistas consideram ter um efeito de enfraquecimento na economia. Não é essa a hora de desregulamentar. Ok, mas vamos deixar isso de lado. Digamos que você poderia argumentar em defesa de algumas formas de desregulamentação. Este governo não tem uma visão de 360 graus. Uma das coisas em que eu fui consideravelmente teimoso quando Trump chegou ao poder foi a ideia “certo, será que nós vamos ter algum tipo de estratégia industrial para o Cinturão da Ferrugem?” (região do nordeste dos EUA que concentra as indústrias pesada e de manufatura). Se você se lembrar, no começo havia alguma discussão sobre conectar os programas educativos de treinamento vocacional às empresas. Ele tinha um conselho de manufatura. É claro, tudo aquilo foi pro espaço. E nunca, nas minhas reportagens, eu consegui ter qualquer impressão de que as pessoas no Trabalho, Educação, Tesouro, qualquer um dos departamentos diferentes estivessem falando entre si, ou que algum assessor econômico do presidente tivesse uma visão de 360 graus. Aqui não é a China. Não existe uma política industrial. Não há um plano. Portanto, o que nós estamos recebendo é uma série aleatória de medidas, algumas das quais cancelam outras.

Trecho de vídeo: Nós temos de limpar o país. Nosso país está uma bagunça.

Narrador: Embora talvez ainda seja muito cedo para dizer qual vai ser o legado econômico do presidente Trump, há desafios à espera. Ciclos de recuperação econômica tendem a durar entre oito e 11 anos. Além disso, esse ciclo tem sido marcado por uma série de políticas monetárias inéditas. A flexibilização quantiativa pode ter ajudado a salvar um navio prestes a afundar no rescaldo imediato da crise de 2008, mas um crescimento frenético nos balanços dos bancos centrais e anos de taxas de juro ultrabaixas deram aos dirigentes poucas ferramentas para neutralizar uma recessão. Quando acontecer a próxima recessão, nós estaremos preparados?

Phelps: A perspectiva é de outra crise; nada como a de 2008 e 2009, mas com certeza uma recessão cíclica. Creio que o desemprego esteja em níveis insustentáveis e acredito que o investimento, sustentado por um pico de confiança, está em níveis que não vão se sustentar.

Foroohar: Muitas pessoas, inclusive eu, estão muito preocupadas em saber se o Fed e outros bancos centrais não estão sem munição. Se você reparar em quanto dinheiro globalmente os principais bancos centrais têm guardado, (dá) cerca de US$ 15 trilhões no balanço deles. Ou seja, é um despejo de dinheiro de proporções nunca vistas antes, e nós estamos começando a ver o efeito cascata disso começar a aparecer, com os problemas que tivemos recentemente nos mercados emergentes. Há uma bolha de dívidas enorme na China. A economia política de lá talvez impeça que ela estoure como aconteceu no caso do Lehman Brothers, mas isso vai ter um efeito amortecedor no crescimento não importa o que aconteça. Portanto, não acho que vamos sair disso facilmente.

Deaton: Não é com a economia que nós estamos preocupados. É com o ataque à democracia. E este ataque à democracia e as desregulamentações, invertendo o sistema legal na direção dos interesses pró-empresariais, vai piorar muito, demais, a vida das pessoas que votaram em Trump. E eu odeio pensar no que elas vão estar fazendo em dez anos. Elas não vão desaparecer.

* Angus Deaton, ganhador do Nobel de Economia de 2015, é professor emérito de Economia e Relações Internacionais na Escola Woodrow Wilson de Relações Públicas e Internacionais, da universidade de Princeton. Barry Eichengreen é professor na universidade da Califórnia, em Berkeley. Rana Foroohar é colunista de negócios globais e editora associada no The Financial Times. Glenn Hubbard é professor de Finanças e Economia na universidade Columbia e reitor da Columbia Business School. Edmund S. Phelps, ganhador do Nobel de Economia de 2006, é diretor do Centro de Capitalismo e Sociedade da universidade Columbia.

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