Coronavírus: seu filho está em risco, acredite

A morte de crianças mostrou que somos todos alvo de contaminação, de sofrimento e morte

As primeiras informações sobre o coronavírus, muito ambíguas, revelavam uma ameaça circunscrita a poucas cidades na China e as críticas sobre os hábitos alimentares dos chineses tomavam os comentários maldosos. Também surgiram aqueles médicos e analistas que diziam que era apenas uma gripe, inclusive provocada por um vírus bem menos nocivo.

Depois, com um pouco mais de informação, a ameaça torna-se mais concreta. A rápida expansão e os primeiros casos na Itália chamam a atenção do mundo. Parece que seguimos na toada: um problema só é um problema quando se instala na Europa ou nos EUA. E a contaminação segue acelerada, tornando a Europa o centro da epidemia, e aí a OMS informa tratar-se de uma pandemia, que atinge a todos.

As recomendações das autoridades médicas ficaram claras pouco a pouco: distância profilática, não sair de casa, isolamento voluntário, quarentena, usar máscara, lavar as mãos, álcool gel etc. E o alvo privilegiado, os idosos, principalmente aqueles que já possuíam alguma patologia crônica, como asma, diabetes e pressão alta.

Assim, acreditamos que o grupo em risco estava bem delimitado. Precisamos cuidar dos nossos idosos, mas nossas crianças e jovens estavam “protegidos”. O cuidado com as crianças estava na sua caracterização como veículo transmissor e não como alvo de contaminação e padecimento. Acreditávamos que mesmo contaminadas as crianças passariam sem sintomas mais importantes.

Agora com a divulgação pela OMS de mortes de crianças e jovens contaminados por coronavírus a configuração profilática e simbólica muda radicalmente. Todos somos alvo de contaminação, propagação, de sofrimento e morte. Esta realidade dura, impõe a necessidade de solidariedade e de reafirmarmos nosso compromisso com a vida.

Crises humanitárias só poderão ser vencidas por meio da ação conjunta, solidária e colaborativa. A questão é que estávamos vivendo o apogeu do individualismo, da valorização do Estado mínimo, da crença que causas e propósitos poderiam nos salvar.

Precisamos de novas sensibilidades, novos valores e novas dinâmicas sociais. Não podemos mais nos contaminar pela superficialidade e pelo engano das informações rápidas, rasas e falsas. Não podemos mais aceitar o desdém com a Ciência e com o conhecimento e a ode a ignorância.

As bravatas e o desrespeito ao humanismo como princípio guia de nossas condutas nos trouxeram até aqui: na iminência do colapso.

Chul-Han afirmou em seu livro A agonia de Eros que a depressão é uma enfermidade narcísica, que se nós amássemos o próximo não nos deprimiríamos – depressão é excesso de amor próprio – foi uma das análises mais lúcidas que li sobre no que nos transformamos: narcisos soberbos pós-modernos! E a sentença já sabemos: morte, simbólica ou real. A simbólica já estávamos “vivendo”, agora chegou a vez da força do real: coronavírus.

A falta de informações da rede privada de saúde, aquela que neste momento recebe o maior volume dos casos em função das características de contaminação em viagens internacionais, oculta a realidade dos fatos. Só falta uma ação do Ministério da Saúde e das Secretarias de Saúde de todos os estados: exigir informações em tempo real da rede privada de saúde. É urgente conhecer para poder prevenir e tratar.

Idosos, adultos, jovens e crianças podem morrer contaminados pelo coronavírus. Temos que cuidar de todos, com medidas radicais de isolamento e proteção e, enquanto isso, aproveitamos para refletir. Porque sim, ainda há certo e errado, verdade e mentira, vida e morte.

 

Clotilde Perez

* Semioticista. Professora de Comunicação e Semiótica da ECA USP e da PUC SP

 

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