Quando normalizamos o erro, o absurdo torna-se praticável.

Ao achar que pequenos erros e desvios morais são normais, é que tudo começa a ficar preocupante.

Em 1961 um psicólogo americano chamado Stanley Milgran, formado na universidade de Yale, conduziu um experimento, que futuramente seria batizado com seu próprio nome – “A Experiência Milgran”.

O experimento mostrava como os participantes observados tendem a obedecer pessoas em cargos de autoridade (cargos e patentes mais altas), mesmo que estas contradigam o bom-senso individual. O objetivo do experimento de Milgram foi verificar a obediência das pessoas à autoridade, e como esta autoridade incide sobre a capacidade do sujeito prejudicar outro ser humano.

A experiência pretendia inicialmente explicar a normalização dos crimes bárbaros cometidos no tempo do Nazismo, em parte aceitos pela população alemã daquela época.

O experimento consistia em 2 atores e a cobaia (uma pessoa). Um dos atores vestindo um jaleco branco (representando a autoridade de cientista) incentivava a cobaia a aplicar choques de voltagens até mesmo fatais em um outro ator, que ficava em uma outra sala separada. Os choques não eram reais, mas quem sabia disso eram os 2 atores apenas, a cobaia pensava que realmente estava aplicando tais choques em uma outra pessoa.

Mesmo a cobaia ouvindo os gritos de “pare” do ator que estava na sala ao lado, ela continuava a aplicar os choques sob a orientação da suposta autoridade, o “cientista”. 

Surpreendentemente 65% (dois terços) dos participantes continuou a aplicar os choques até o mais alto nível de 450 volts, e todos os participantes continuaram até 300 volts.

Caso tenham interesse, há um filme no Netflix que conta a história de Stanley Milgran e de seu experimento.

Mas o que de fato o “Experimento Milgran” nos mostra? 

No meu entendimento ele nos abre os olhos de como podemos estar agindo de forma contrária aos nossos valores éticos e ao que é correto, atribuindo a culpa ou responsabilidade a uma autoridade. Ou seja, nos eximindo de qualquer responsabilidade sobre o ato.

A maior parte de nós, excluindo é claro as pessoas que possuem algum tipo de psicopatia, nasce com um senso e um instinto do que é certo e errado, do que é correto ou não se fazer a outro ser humano. Mas parece que ao entrarmos no mundo corporativo, alguns de nós passam a abrir pequenas exceções.

Essas pequenas exceções passam a se tornar mais frequentes e se normalizam, dando lugar a novas pequenas exceções, estas últimas um pouco maiores do que as primeiras e assim por diante.

No cenário politico brasileiro vimos isso acontecer por décadas. A corrupção se tornou algo tão banal que todo o povo brasileiro sabia, e de alguma forma passou a encará-la como normal, algo inerente ao nosso governo. Em uma época passamos até a usar o jargão “ele rouba mas faz”, para justificar o voto em um candidato específico que roubava mas fazia algumas coisas boas. Apenas nos últimos anos vimos que não, que a corrupção não era normal, e alguma justiça passou a ser aplicada.

Quando voltamos os holofotes para as empresas, esta “autoridade” configurada no experimento Milgran pode ser o chefe, a empresa, a cultura, o momento, o mercado entre outros. Neste sentido, acabamos por imaginar que somos isentos de responsabilidade em relação aos pequenos erros com as pessoas, que por ventura podemos aceitar comete-los sob o comando de nossos “Chefes”.

Não, nós não somos isentos desta responsabilidade! Assim como os soldados da SS também não foram.

Ao achar que pequenos erros e desvios morais são (moral no sentido do que é correto se fazer com outro ser humano) normais, é que tudo começa a ficar preocupante. Por exemplo: 

  • Achar que é normal tornar a vida de uma pessoa mais difícil dentro de uma empresa para forçar um pedido de demissão;
  • Achar que é normal ser desrespeitoso e assediar moralmente as pessoas, só porque neste mercado sempre foi assim;
  • Achar que a pressão por resultados é inversamente proporcional ao respeito pelas pessoas;
  • Achar que é normal enganar pessoas para se obter margens mais altas;
  • Achar que é normal falar uma coisa e fazer outra, enganando assim as pessoas para que elas sejam conduzidas de uma forma mais conveniente;
  • Tratar mal e colocar uma pressão além da necessária em parceiros e fornecedores sob tom de ameaça;

Os exemplos podem ser vários, eles ainda acontecem diariamente em inúmeros lugares.

Enfim, no momento em que passamos a achar estes erros normais, que muitas vezes são legalmente aceitos mas moralmente condenáveis, é que começamos a abrir espaço para que erros maiores ocorram e para que o absurdo se torne aceitável. 

Se você é uma boa pessoa, com este instinto do que é certo e errado, siga-o sempre. Geralmente o que queremos que os outros façam para nós é o que devemos fazer para o outro, e o que não queremos para nós é o que não devemos fazer ao outro. É simples, e agir de uma forma ou de outra não é resultado do que o seu “chefe” pediu para você fazer ou deixar de fazer. O que é certo é certo, e aceitar o errado mesmo que sob comando de uma “patente” mais alta continua sendo errado, ao fazer isso você se torna responsável e cúmplice. 

No momento em que vivemos, de uma pressão gigantesca por resultados, com margens cada vez mais apertadas, com uma concorrência crescente e predatória, precisamos sempre vigiar para que não cometamos esses pequenos erros morais com as pessoas que nos ajudam a construir nossas empresas. São elas, assim como você, que se dedicam para que o trabalho saia da melhor forma e, a melhor maneira de agir com elas é com respeito e verdadepor mais dura que a verdade seja. 

A gente se esquece que as posições que temos em nossas empresas são meras patentes, e que em algum momento essas patentes serão dadas à outras pessoas. No final o que fica é o respeito, admiração e o impacto positivo que você construiu junto as pessoas ao seu redor. 

E os resultados financeiros?! São a consequência de uma equipe motivada por um líder inspirador e correto, que não sacrifica seus valores pela cega obtenção de margens, e ao não fazer isso e conquistar a confiança destas pessoas, estas pessoas se sacrificam voluntariamente pelo todo, trazendo assim resultados acima do esperado.

Manter-se reto, justo e correto com as pessoas é um desafio, mas ao fazê-lo a recompensa é alta… ao fazê-lo, o que é certo começa a se tornar regra, e o errado exceção, e assim o absurdo não mais se tornará praticável.

 (Thiago Franzão/Site EXAME)

Texto escrito pelo parceiro Thiago Franzão, membro do Humans Can Fly.