Os Círculos de Segurança de Simon Sinek – uma nova visão sobre liderança

Como construir equipes seguras e confiantes? Uma breve jornada através dos ensinamentos do livro "Líderes se servem por último"

“A liderança não é a licença para fazer menos; é a responsabilidade de fazer mais. E este é o problema. Liderar dá trabalho. Consome tempo e energia. Os efeitos nem sempre são medidos facilmente, e nem sempre são imediatos. A liderança é um compromisso com seres humanos.“

O trecho acima é do livro “Líderes se servem por último – como construir equipes seguras e confiantes” de Simon Sinek – que recentemente li e despertou inúmeros insights e questionamentos sobre o papel e a responsabilidade da liderança. Ao longo de capítulos recheados de conceitos, pesquisas e histórias reais, Simon aponta novas possibilidades de gestão e uma reorientação para os sistemas hoje vigentes. É fato que o Mundo vem nos mostrando novos contornos e várias áreas passam por profundas transformações. A liderança não fica à margem, e novos modelos vem sendo propostos para acompanhar as macromudanças globais.

Já faz um bom tempo que sigo o trabalho de Sinek e confesso gostar muito do seu olhar visionário, inovador e inspirador. O livro em questão aborda um desses novos olhares para a gestão a partir da teoria do “Círculo de Segurança” – criada pelo próprio autor, e que basicamente é apoiada em dois princípios: confiança e cooperação. Princípios que segundo Sinek, são capazes de tornar, internamente, um organismo coeso e portanto hábil para lidar com as ameaças exteriores. “Quando a confiança e a cooperação prosperam internamente, ficamos unidos e assim a organização fica mais forte.” – aponta o autor.

Proponho aqui uma jornada através de algumas passagens que me marcaram ao longo do livro, e aproveito para conectar as bases do “Círculo de Segurança” com a experiência de gestão do meu entrevistado da vez, o publicitário Thiago Franzão que acabou de assumir um novo desafio na agência Africa, depois de comandar uma equipe de 35 pessoas como VP de Mídia na agência Grey. 

Para iniciar nosso percurso, gostaria de voltar para a citação que abre essa matéria, fazendo uma correlação com um trecho do bate-papo com o Thiago, onde ele comenta sobre o “sentido” da liderança:  

“Esses dias li um livro que me inspirou bastante, chamado “Tao te Ching”- ele foi escrito há aproximadamente 2.600 anos por um filósofo chinês chamado Lao-Tsé (contemporâneo de Confúcio). Ele traz um conceito muito interessante sobre como governar/liderar: ‘Rios e mares demandam os vales, porque procuram os lugares baixos. O soberano só pode governar quando o seu governo brota do interior. Por isso o verdadeiro sábio, quando quer governar, modera as suas palavras e renuncia o próprio ego. Assim ele é um verdadeiro soberano, e o seu povo não se sente humilhado. Governa, mas ninguém se sente governado. Todos lhe obedecem de boa mente, e se sentem amparados e livres. Nada dele reclamam. Nada desejam’. Em resumo, liderar é simples e ao mesmo tempo complexo, simples porque se resume em fazer o melhor, fazer o que é correto, dar o exemplo e tratar as pessoas como você gostaria de ser tratado. Complexo, pois os problemas e a pressão do dia a dia tentam nos fazer esquecer destes nobres princípios morais. Ter consciência disso faz com que busquemos cada vez mais lapidar o nosso modo de liderança” – finaliza Thiago.

Sinek e Franzão apontam para a complexidade da gestão ao mesmo tempo em que sugerem um aprimoramento constante. O foco, em ambas visões está nas pessoas, no grupo, no “povo”. Quanto mais essa ponte entre líder e liderados é sólida e legítima, melhor o exercício da função. Nas décadas finais do século XX, um grande hiato foi criado entre a liderança e seus colaboradores – época em que a gestão passou a ser voltada exclusivamente para o resultado dos acionistas – como se fossem dois grupos absolutamente distintos, apenas com o comando como fio condutor. A dupla, é claro, não perde de vista os resultados, mas incorporam o olhar sobre as pessoas como de pilar de extrema importância.

Ainda sobre o conceito ou arte de liderar, separei mais alguns trechos de Sinek para ampliar esse ponto da nossa jornada:

“Líderes notáveis e todos que trabalham em suas organizações acreditam que servem a uma causa, e não a um estranho com motivos egoístas. E essa causa é sempre humana. Assim, todos sabem por que foram trabalhar.”

A responsabilidade de um líder é proporcionar cobertura do alto da hierarquia para o pessoal que está trabalhando lá embaixo. Quando as pessoas sentem que têm controle para fazer o que é certo, mesmo que isso implique em uma quebra ocasional das regras, provavelmente elas farão o que é certo. A coragem vem de cima. A confiança para fazer o que é certo é determinada pela confiança que nossos líderes depositam em nós. Não confiamos em regras, confiamos em pessoas”. 

Aproveito para fazer mais uma conexão com a visão do Thiago Franzão: “O papel do líder é ter em seu time, ou pelo menos na maior parte dele, pessoas que estão alinhadas de alguma forma com seus valores. Não quero dizer que são pessoas iguais a ele, mas sim pessoas que carregam o mesmo sentido de ética, moral, conduta e honestidade.”

Seguimos nossa jornada, e nossa próxima parada nos chama para comparar dois modelos de gestão; um pautado no “comando e controle” versus aquele baseado nos princípios de “confiança e cooperação” de Sinek:

Se pedirem a pessoas boas para trabalhar em uma cultura ruim, na qual os líderes não abrem mão do controle, as chances de que aconteça alguma coisa ruim tendem a aumentar. As pessoas ficarão mais preocupadas em seguir regras por medo de terem problemas ou de perder seus empregos do que em fazer o que precisa ser feito.”

“Sem coerção, força ou pressão, as pessoas trabalham juntas com tranquilidade, ajudando-se mutuamente e fazendo a companhia progredir” 

No Círculo de Segurança, a visão de gestão sai do modus “comando e controle” partindo para uma liderança que apoia o protagonismo e dá autonomia em forma de confiança, ativando assim a sensação de pertencimento e incentivando a cooperação. O sistema promove que cada um ative seus talentos e seu pleno potencial em prol do bem comum. Cada um tem seu “lugar” no Círculo, espaço que promove e amplia a compreensão de que todos são igualmente importantes para a manutenção do sistema. 

Um dos segredos da formação de um bom Círculo de Segurança está na escolha dos membros do Círculo. A diversidade de expertises, a multiplicidade de talentos e personalidades diversas confere segurança pela via da complementariedade, assegurando o bom funcionamento da engrenagem. 

Membros com personalidade aberta à cooperação/colaboração garantem o fluxo de desenvolvimento e manutenção do Círculo. Nesse sistema, o protagonismo é amplamente incentivado, ao passo em que é estimulada a sensação de pertencimento aos membros do grupo. Compartilho mais um trecho de Sinek:

“As lideranças devem ter como meta criar uma cultura livre do perigo que surge entre colegas. Isso pode ser feito dando às pessoas a sensação de pertencimento. Oferecendo-lhes uma cultura forte, baseada em um conjunto claro de crenças e valores humanos. Dando-lhes poder para tomarem decisões e solucionarem problemas. Oferecendo confiança e empatia; criando um Círculo de Segurança.”

Para se contrapor à cultura do medo e da insegurança, Simon Sinek dedica uma parte substancial do livro para falar sobre as emoções que nos conectam ou desconectam do grupo e/ou do ambiente onde estamos inseridos. Vamos avançar nossa jornada e falar sobre as substâncias químicas que nos impactam em nosso dia a dia. O autor aborda o cortisol como hormônio responsável pelo estresse e ansiedade – presente nas culturas baseadas no medo. Em oposição ao cortisol, Sinek fala sobre a seratonina e ocitocina batizados por ele de “substâncias químicas altruístas”, hormônios que são responsáveis por manter forte o Círculo de Segurança. “A seratonina e a ocitocina fazem com que nos sintamos valorizados quando estamos na companhia daqueles em quem confiamos, dando-nos a sensação de pertencimento e inspirando-nos a querer trabalhar pelo bem do grupo. Se as pessoas de uma organização se sentirem seguras umas com as outras, vão trabalhar juntas e realizar coisas que nenhuma delas conseguiria realizar sozinha.”

Passando a bola para Thiago Franzão:Pessoas vem de culturas, criações, histórias e relações muito diferentes umas das outras, cabe ao líder entender e orquestrar este conjunto para extrair o melhor de sua equipe. O líder é um maestro que busca uma sintonia entre vários instrumentos diferentes”. Para ele, liderar é um treino, uma escola onde sempre se pode aprender algo novo. “A forma que sempre tentei liderar se baseia em conceitos muito simples*”. Vejo o resultado desses conceitos aplicados quando entrevisto algumas pessoas para fazer parte do meu time, e elas dizem que querem essa ou aquela posição porque acreditam no modelo de liderança e visão da área, vejo o resultado quando pessoas preferem ficar na equipe ao receberem propostas financeiramente mais atrativas, vejo o resultado quando mesmo atolados de trabalho (e isso é comum em uma agência de publicidade) as pessoas estão dando risada, vejo o resultado disso quando enxergo nas diferenças da minha equipe uma unidade”. 

E puxando um gancho para o contexto atual, Thiago segue compartilhando sua visão: “Acredito que a grande mudança que está acontecendo nos modelos de liderança mais contemporâneos é que o foco passa a ser o ser humano, a pessoa, o indivíduo, não apenas o número. É claro que ainda não temos um mundo corporativo onde existem apenas líderes, temos alguns vários chefes. Não há mais lugar para chefes nas empresas que querem ser bem sucedidas, apenas para líderes. Chefes governam pelo medo, líderes pela inspiração e exemplo, chefes tratam seus colaboradores da forma como lhes é mais conveniente, líderes tratam seus colaboradores da forma como gostariam de ser tratados.

Não estou dizendo que estamos entrando em um mundo onde vamos começar a abraçar árvores no meio de uma reunião, certamente o mundo corporativo continuará tendo uma pressão violenta por resultados como sempre teve, isso é inerente a qualquer negócio, mas creio que pessoas sendo tratadas como pessoas proporcionam resultados infinitamente melhores do que pessoas sendo tratadas como números”.

O interessante é que durante meu papo com o Thiago, eu ainda não havia selecionado as citações de Sinek e tampouco comentado a linha de narrativa que faria nessa matéria. Mesmo assim, os pontos sobre liderança e gestão de ambos tiveram correlações bastante sinérgicas, criando essa conexão interessante entre teoria e prática. Essa ponte é muito interessante para que os conceitos que não fiquem apenas no mundo das ideias. 

A abordagem de Sinek é totalmente voltada para gestão de pessoas. Em sua visão, ao fortalecer o time com base na confiança, colaboração, no fortalecimento da cultura e nos valores da organização, o Círculo de Segurança é formado, blindando o time contra as ameaças exteriores. Franzão também faz suas apostas na gestão de pessoas como pilar de segurança e de resultados. 

Os dois deixam uma lição. Para ambos, o time coeso fortalece a cultura e a cultura fortalece o time coeso em uma relação virtuosa e duradoura, condição primordial para a ramificação do sistema em todo o organismo. 

E para concluir nossa jornada, compartilho as conclusões, primeiro de Franzão, finalizando com Sinek, sobre os novos rumos de uma liderança que hoje desbravam novos campos de expressão e atuação:

“O caminho natural do mundo é a evolução. Esse é o caminho da própria natureza; é a nossa natureza. Pode parecer que por vezes estamos em um processo retrógrado, mas ao compararmos a nossa realidade atual com épocas e eras anteriores a nossa, a evolução fica evidente, mesmo sabendo que ainda temos muito a evoluir. Esta evolução permeia tudo, pois ela é relativa ao ser humano. E no momento em que o ser humano evolui, ele aplica esta visão de mundo transformada em todas as suas atividades. A liderança não está de fora. 

O mercado precisa de mais líderes e menos chefes, e automaticamente essa substituição passa a acontecer, pois é consequência da evolução natural do ser humano, desdobrada no ambiente corporativo”.

“A liderança, a verdadeira liderança não é um bastião daqueles que estão sentados no topo. É a responsabilidade de qualquer um que pertença ao grupo. Embora as pessoas inseridas na hierarquia formal possam ter autoridade para trabalhar em uma escala mais ampla, cada um de nós é responsável por manter forte o Círculo de Segurança. Precisamos começar a fazer hoje pequenas coisas para o bem dos outros… um dia de cada vez.

Sejamos todos os líderes que gostaríamos de ter tido.“

Nossa jornada se encerra aqui, ao mesmo tempo em que lideranças ao redor de todo mundo seguem imbuídas em suas jornadas de transformação. Desejo sorte! O caminho pode até ser longo, mas como Lao Tsé mesmo diz “Uma longa viagem começa com um único passo”. Que Sinek e Franzão estejam certos em suas previsões e ensinamentos e possamos presenciar momentos de mais sinergia, mais equidade, empatia, confiança, cooperação, protagonismo, sem esquecer da felicidade. Até porque, no final de tudo, para que estamos mesmo aqui?

*Durante o bate-papo com o Thiago, ele citou uma lista de 12 conceitos simples aplicados por ele em seu dia a dia como líder. Como é lista é bastante interessante, criei um novo post para compartilhar com você leitor.

Por Luah Galvão

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Idealizadores do Walk and Talk, Luah Galvão e Danilo España deram uma Volta ao Mundo por mais de 2 anos e visitaram 28 países para entender o que Motiva pessoas. Em seguida fizeram o Caminho de Compostela entrevistando peregrinos sobre Superação. Recentemente voltaram da Expedição Perú, onde focaram seu olhar para resiliência. Compartilham suas descobertas através de palestras e workshops por todo o Brasil.

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