Mundo em transição – Gente em transição

Matutina Onze - uma história de empreendedorismo e mudança pra você que quer se inspirar para um novo voo profissional.

Observo os pássaros migratórios no céu e percebo que eles se guiam por uma bússola interna.

Observo pessoas ao meu redor e percebo uma dupla que migrou como os pássaros, mas não para um território de conforto sazonal, e sim para uma nova jornada. Jornada essa de prosperidade e felicidade, justamente por não seguir o óbvio ou, o socialmente esperado. Os personagens dessa nova matéria são os artistas plásticos Glenio Lima e Fernanda Pacca, sócios da Galeria de Arte Contemporânea Matutina Onze. Faço um convite para que conheça com a gente esse caminho de transição que vem sendo construído a quatro mãos.

Em Julho a Matutina Onze celebrou 1 ano de vida, marcando o voo dos amigos Glenio e Fernanda de Brasília para a pitoresca cidade histórica de Pirenópolis – no interior de Goiás. Ambos decidiram em uníssono trocar a vida estável de Brasília para escutar um chamado que vinha do coração. E o que parecia uma aventura, foi se desenhado como um grande acerto em suas vidas.

E tudo começou em um feriado quando foram visitar outra grande artista, a amiga Vera Michels, com ateliê em Pirenópolis. Depois de muita troca e diversão, já no caminho de volta para Brasília, Fernanda conta que sentiu aquela famosa “pontada no coração” – quando estamos nos despedindo de algo que faz muito sentido para nós. Manifestou seu sentimento para o amigo Glenio que compartilhava das mesmas impressões. Aquele saudosismo, antes mesmo da partida, ajudou a estabelecer uma visão de futuro projetando um sonho comum aos dois: “Por que não mudar para Pirenópolis e montar algo juntos?”. Imediatamente mudaram o rumo do carro e começaram a caçar casas com plaquinhas de aluguel.

Loucura? Abstração? Devaneio? 

Podia ser tudo isso, mas os olhos de ambos brilharam entusiasmados com o amanhã que começava a se delinear. Essa chama que pulsa por vezes dentro da gente, talvez seja o maior sinal de que algo grande está começando a acontecer. Ainda não sabiam contornos ou detalhes, mas a bússola de ambos apontava para Pirenópolis. Seguiram estrada, com alguns bairros na cabeça e telefones anotados, dias depois estavam de volta para ancorar a primeira galeria de Arte Contemporânea da cidade. “Foi tudo muito rápido. Visitamos Pirenópolis no dia 6 de Maio de 2017, em 15 de Junho já havíamos nos mudado e no dia 8 de Julho inauguramos a Galeria.” – conta Fernanda.

Questionei os dois como foi a tomada de decisão. Uma coisa é o frisson que sentimos quando nos alinhamos com a nossa jornada à seguir, outra é a coragem para recalcular a rota e dar os primeiros passos.

“Foi a partir de um passeio com a Fernanda que veio a ideia. Percebemos que apesar de Pirenópolis abrigar muitos artistas e ser um centro com tanto potencial cultural, não havia uma galeria de Arte Contemporânea. Isso acendeu nosso desejo de trazer a nossa arte e nossa experiência para um lugar a ser descoberto.” – conta Glenio, e segue dizendo que esse espírito aventureiro já havia se manifestado outras vezes, mas que dessa vez havia sentido algo diferente: “A decisão de montar um negócio de arte contemporânea, num lugar improvável e através de uma parceria, me pareceu meu maior desafio enquanto artista. Creio que tudo isso foi a revelação de um propósito que já existia antes, mas estava em estado de repouso.”

 (Galeria Matutina Onze/Site EXAME)

E a Fernanda emenda “Mudei para Pirenópolis porque queria viver exclusivamente da minha arte e ter um lugar para expor meu trabalho. Em Brasília, eu conciliava a vida de artista com a rotina de dentista. Suportei isso até 2015 quando larguei o consultório. Eu me sentia como se levasse uma vida que não havia sido desenhada por mim. A ideia de ter um emprego estável nunca me atraiu. Minha arte não combina com estabilidade. Eu precisava encontrar um lugar onde conseguisse produzir, expor e viver das minhas obras. Essa mudança de rota teve relação direta com a necessidade de desenhar minha própria vida, de perseguir o que faz sentido, de trabalhar com o que se gosta, mesmo que isso não seja exatamente o que os outros esperam de você.”

 (Galeria Matutina Onze/Site EXAME)

Como ela compartilhou, nem todos entenderam ou apoiaram essa mudança de rumo dos dois. Para os não sonhadores ou inovadores, é muito difícil entender como a ousadia vence a estabilidade e o sonho vence a rotina, ainda mais quando essa é uma rotina considerada de sucesso. Mas mesmo sem todas as aprovações ou apoios, a rota estava traçada. Havia uma certeza que só se estabelece quando estamos de fato conectados com o nosso propósito e a nossa essência. Aí sim somos capazes de ouvir nossa bússola…

Glenio compartilha que apesar de não ser nascido em Brasília – ele é do Tocantins, chegou lá ainda menino e construiu toda trajetória como artista no Distrito Federal. “Ultimamente me sentia confortável com as minhas conquistas e não tinha planos de mudança. Mas quando surgiu a ideia de vir para Pirenópolis, para viver e continuar trabalhando com arte, o meu conforto virou estímulo e atitude de transformação, o sentido da palavra mudança soou de forma mais ampla.”

Antes da transição, a conexão entre os dois já estava estabelecida fazia um tempo. A aproximação que resultou em amizade, depois em parceria e sociedade começou quando Glenio aceitou o convite de Fernanda para ser seu curador. “Ele aceitou meu convite logo de cara e me surpreendeu com isso. Foi assim que o Glenio começou a conhecer a fundo o minha obra e eu, a dele. Percebemos uma identificação entre nossos trabalhos e nossa forma de produzir. Participamos de vários eventos e exposições coletivas. A parceria se tornou uma sociedade e isso veio acontecer com a criação da Matutina Onze.

É interessante acompanhar esses voos de autenticidade depois de um tempo e validar se as bússolas levaram mesmo seus “seres-voadores” para o destino correto. Quando se empreende um sonho, os aprendizados são inúmeros e a transformação é consequência inerente a todos. Conversando com os dois sobre aquilo que aprenderam com a jornada, Fernanda Pacca compartilha: 

No início, muitos diziam que o que estávamos fazendo era loucura, mas hoje estou convicta de que Pirenópolis é um bom lugar para o tipo de arte que fazemos. É uma cidade que tem um fluxo muito interessante de turistas de diferentes partes do Brasil e do mundo. Recebemos diariamente visitantes na galeria. Ganhamos visibilidade, produzimos e vendemos mais. Além disso, notamos que o surgimento de uma galeria de arte contemporânea em uma cidade do interior de Goiás foi de grande importância. Muitos não tinham acesso a esse tipo de expressão e as reações têm sido surpreendentes e estimulantes (A Galeria Matutina Onze recebe a visita não só da comunidade, como de escolas da região para que os alunos tenham contato com a arte contemporânea). Esse ano para mim foi importante para perceber que é possível viver da arte. Trabalhar todos os dias, como artista e empresária da minha própria produção. A maior conquista no âmbito pessoal foi me conhecer e ser reconhecida como artista plástica.”

 (Galeria Matutina Onze/Site EXAME)

 (Galeria Matutina Onze/Site EXAME)

Glenio também trouxe seus aprendizados: “Nesse primeiro ano tivemos uma produção intensa e muitas surpresas com a criação das obras, com os materiais utilizados e temas abordados. Tudo parece brotar do nosso imaginário poético em relação ao lugar que estamos vivendo. Percebemos que o nosso empreendimento virou uma espécie de provocação para nós mesmos. O período do desafio já passou, vivemos hoje o tempo da motivação, e quando percebemos que a motivação maior é viver o que amamos, tudo parece mais leve. Aprendi a viver, praticamente, em dois tempos: o tempo que parece lento – com a realidade da cultura popular, religiosa e da memória colonial brasileira, e um outro tempo, mais interno, mais reflexivo, com olhar contemporâneo sobre a tradição.”

Provoquei-os com a analogia sobre os pássaros migratórios que se norteiam através de sua bússola interna, perguntando como essa imagem se relacionava com a mudança de rota dos dois. Glenio me respondeu com a seguinte afirmação: “Assim como os pássaros, nós humanos também temos uma intuição que nos impulsiona ou nos faz recuar. Pirenópolis foi a chance de arriscar um tempero que ainda não havíamos experimentado. O mais óbvio seria buscar um grande centro com boas referências no mercado de arte, no entanto, a intuição nos fez investir em algo novo, fora do script no mundo artístico. Fizemos o caminho inverso e partimos da cidade grande para o interior do Planalto Central.”

Encerrei a conversa perguntando, “Em apenas uma frase, o que para vocês é Sucesso?”

Fernanda: “Fazer o que gosto, gostar do que faço e ser reconhecida por isso.”

Glenio: “É atingir uma meta, um sonho realizado.”

E Propósito?

E os dois responderam em sintonia: “É a construção de uma ideia e o desejo de realizá-la.”

Cada dia encontramos mais histórias de pessoas em transição, buscando voos com mais significado e propósito. Imagino que alguns anos para frente, essa época ganhe relevância como um momento de reflexão e despertar. Muitos não tem mais encontrado sentido naquilo que fazem, outros vem buscando nas asas dos pássaros inspiração e coragem para saltar para caminhos de maior realização. Existe ainda um grupo crescente já em pleno voo, pessoas em conexão com o seu interior, como Fernanda Pacca e Glenio Lima, que se deram a chance e o direito de escutar a bússola que aponta o norte, provavelmente pouco percebida, mas presente em todos nós. 

Por Luah Galvão 

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Idealizadores do Walk and Talk, Luah Galvão e Danilo España deram uma Volta ao Mundo por mais de 2 anos e visitaram 28 países para entender o que Motiva pessoas. Em seguida fizeram o Caminho de Compostela entrevistando peregrinos sobre Superação. Fecharam a tríade de viagens pesquisando “Resiliência” no projeto que batizaram de “Expedição Perú” Compartilham suas descobertas através de palestras e workshops por todo o Brasil.

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