Empatia: uma transformadora forma de conexão.

Você já se sentiu calçando os sapatos de outra pessoa? Essa é apenas uma analogia para falar de Empatia, que vai muito além de se colocar no lugar do outro.

E tudo começa com a conhecida frase: “Você já se sentiu calçando os sapatos de outra pessoa?!”. Essa é apenas uma analogia usada para contextualizar o exercício da Empatia, que vai muito além do processo de se colocar no lugar do outro.

Recentemente São Paulo foi palco de uma experiência conduzida pelo Intermuseus, que teve a brilhante ideia de entrar em parceria com o Museu da Empatia de Londres para trazer a exposição “Caminhando em seus sapatos”, encabeçada pelo filósofo social e fundador do Museu; Roman Krznaric. 

Instalada no Parque do Ibirapuera, a experiência teve como propósito “provocar o público a se colocar no lugar do outro, ver com os olhos do outro, pensar de outra forma sobre a realidade em que vivemos e promover o diálogo entre as diferentes pessoas e grupos sociais.” – nos contou Joana Tuttoilmondo, sócia do Intermuseus. O trabalho se iniciou com uma longa curadoria que resultou em 25 histórias reais de impacto, gravadas em áudio por seus protagonistas – todos brasileiros. Para exercitar a empatia, o público era convidado a trocar de sapatos, vestindo literalmente os calçados reais do dono da história escolhida para ser ouvida. Quando soubemos da iniciativa, eu e o Dan levamos um grupo de 50 pessoas para vivenciar essa experiência e propusemos em seguida uma roda de conversa para compartilhar os sentimentos gerados pela atividade. 

 (Danilo España/Site EXAME)

A roda rendeu depoimentos surpreendentes, mesmo entre pessoas que não se conheciam. Houve um grande espelhamento entre as histórias pessoais da nossa turma e as ouvidas no Ibirapuera. Rimos e choramos juntos. No final do dia, eu estava decidida a escrever uma matéria sobre o tema. Havia percebido o tamanho da necessidade de promovermos a empatia como um valor que precisa ser experimentado e ressignificado diante de tempos de tanta desconexão. Comecei entrevistando Joana Tuttoilmondo, nossa anfitriã no dia da experiência. 

Questionei Joana sobre o significado e a importância da empatia, e ela inicia sua resposta parafraseando Roman Krznaric – fundador do Museu: “A empatia é um antídoto para o individualismo extremo em que chegamos no século 20.” E complementou com o seu ponto de vista: “A empatia é um tema importante na sociedade contemporânea. Há uma fala de Barack Obama que diz que a empatia é o grande déficit que temos no mundo hoje. Vivemos num contexto em que conflitos emergem em todo o mundo, com novos movimentos de fechamento de fronteiras, de acirramento dos nacionalismos, quase um refluxo do movimento de globalização pelo qual o mundo passou nas últimas décadas. Há uma grande falta de diálogo na atualidade, portanto, desenvolver a habilidade para compreender a realidade e o ponto de vista dos outros é um passo importante.” 

Joana Tuttoilmondo

Joana Tuttoilmondo (André Ligeiro/Site EXAME)

Durante a atividade no Museu, senti uma conexão enorme com a história que escutei e percebi não ser a única a sentir essa sintonia. Muitos dos que estiverem em nosso grupo também se conectaram intimamente. Pedi então que a Joana compartilhasse algumas reações do público diante das histórias ao longo dos dias do evento.

“Houve uma menina, por exemplo, que terminou a história sensibilizada ao ter ouvido o depoimento de uma pessoa que migrou da Bahia para para São Paulo. Ela falou para a mãe dela, espantada: “mãe, ela contou que quando era criança tinha que andar 4 horas montada num jegue até conseguir água para beber!”. Um pai nos contou sobre sua resistência em aceitar a opção profissional da filha adolescente e que ia rever sua posição ao escutar a história de uma moça que atravessou um processo de rever sua carreira em busca de uma atuação que lhe desse mais propósito. Uma senhora, ouviu a história de uma moça com uma doença degenerativa que a levou à cegueira e contou, bastante emocionada, que após ter escutado a história, conseguia compreender melhor a situação de uma amiga que sofreu de um problema semelhante e saberia agora o que falar para ela.”

 (Filipa Porto via site Intermuseus/Site EXAME)

E seguiu: “O que me chamou atenção foi a força de ouvir histórias que tocam em sentimentos universais, o que é bem diferente da conversa esvaziada de significado e conexão que permeia nosso dia-a-dia. A experiência nos mostrou também que queremos situações em que nos sintamos tocados. Histórias acendem uma faísca que pode provocar um questionamento, uma inquietação, desestabilizando preconcepções arraigadas e abrindo novas perspectivas, seja no plano das inter-relações pessoais de nosso cotidiano, seja na maneira como encaramos algumas questões sociais críticas dos dias de hoje.”

Falando em histórias… Era uma vez a história de mais uma das Marias desse Brasil. Seu nome: Maria do Sol. 

Quando era um bebê com apenas 45 dias de vida experienciou um fato que mudaria pra sempre sua trajetória. Uma vela acesa no quarto caiu acidentalmente no berço em que dormia, e o cobertor sintético que a cobria incendiou imediatamente. Maria do Sol teve lesões gravíssimas nos dois pés, que uma vez carbonizados, tiveram que ser amputados. Essa foi a maneira encontrada por uma excelente equipe médica para salvar sua vida.

O tempo passou e mesmo com todas as dificuldades e adaptações necessárias, Maria sobreviveu. Proponho que durante um minuto você faça um exercício de empatia buscando se colocar no lugar dela. Tente sentir como reagiria?! Como seria sua vida diante das dificuldades geradas?! Difícil até de imaginar, né?! 

Você deve estar pensando que essa é uma das histórias de vida trazidas pelo Museu da Empatia… até poderia ser, mas Sol é uma figura especial que a vida fez cruzar nossos caminhos. E ao contrário do previsto, a experiência, a princípio traumática, conferiu a Sol, uma personalidade radiante, como seu próprio nome traduz. Toda dor e dificuldade foram transformadas em fortaleza, em uma capacidade inesgotável de viver a vida e irradiar energia por onde passa. 

 (Maria do Sol/Site EXAME)

Hoje com 41 anos, Maria do Sol é Master Coach de Profunda Performance e autora, casada, tem 5 filhas e faz inúmeros projetos sociais ligados ao desenvolvimento humano como agente de transformação. “Quando o acidente aconteceu tive uma alteração do meu destino, mas isso não tirou um pedaço da minha alma ou da minha mente, foi apenas um pedaço do meu físico. Esse novo destino me trouxe muita consciência e uma lapidação da alma que muitas vezes a dor traz.” 

Conversei com ela sobre a matéria de empatia que estava escrevendo e pedi seu olhar, tanto pessoal como de coach. Ela começou pelo lado pessoal dizendo: “A chave dos nossos relacionamentos está na comunicação, e a empatia é a comunicação do coração. Ela é a capacidade de se identificar com outra pessoa, de transitar para o lugar do outro para sentir o que ele sente. Quando o outro sabe que você se importa, então é fácil você ser ouvido. É fácil ter as portas abertas e criar rápidas conexões para que a vida flua. A empatia facilita a vida imensamente.”

Sobre sua relação com as 5 filhas, Sol comenta que foi só através da empatia que conseguiu criar uma estrutura familiar harmônica e feliz.  Ensina que faz uso da empatia como ferramenta para mediar os relacionamentos em sua casa, tanto entre as meninas, com idades entre 8 e 19, quanto com seu marido George. “A tática é mostrar para um e outro, o ponto de vista do terceiro, ou como esse outro se importa por determinadas questões.” Ela tenta espelhar a dor do outro para que possa ser sentida e gere uma mudança de atitude positiva. “Empatia é diferente de solidariedade, é a certeza de que as dores e os problemas do outro importam tanto quanto os seus. Sair do individual e ir para o coletivo também é um exercício de empatia.” 

 (Maria do Sol/Site EXAME)

Ainda falando sobre as relações comenta: “Nem sempre quando somos empáticos recebemos a empatia de volta, mas não tem problema. Desenvolver a capacidade de amar, de sentir empatia, de comunicar com carinho, é algo que nos torna melhores.” E segue comentando que a vida é feita de altos e baixos e que devemos entender não somente seus ciclos, como a alternância de nossos papéis ao longo da jornada: “A cada momento estaremos em um lugar na ciranda da vida. Altos e baixos sempre acontecem, então devemos nos solidarizar, ser generosos nos momentos do outro. Em um momento somos filhos, depois pais, um dia seremos velhos – se a vida permitir, então, temos que cuidar do próximo da melhor maneira que pudermos.”

 (Maria do Sol/Site EXAME)

Do seu ponto de vista como coach, ela começa dizendo que cada ser humano é um universo, um mistério a ser revelado: “No processo de coaching, se você não desenvolve empatia, fica impossível perceber o que o outro realmente precisa em termos de necessidades humanas. O outro precisa entender que você realmente se importa, assim ele entra em real conexão com você.” E alerta: “A empatia não é uma suposição. Está errado pressupor o que o outro sente a partir de nossa opinião. Não podemos supor o que o outro precisa, é justamente aí que se cria a desconexão ao invés da empatia. A verdadeira empatia implica em se importar e para se importar, tem que ser de verdade.”

No final do nosso papo perguntei se o exercício da empatia pode ser considerado um dos pilares de um novo momento global, mais humano e consciente. “Sim, pra mim a empatia é um dos pilares da nova consciência. O individualismo gera um imenso vazio existencial, o adoecimento emocional é nítido. A realização do ter já não mais abastece a alma, por isso existem tantas pessoas materialmente bem, mas com um vazio existencial imenso. Em contrapartida, o mundo mais empático é um mundo mais amoroso. Vale a pena desenvolver empatia, mesmo que nunca tenhamos sido treinados para isso. A empatia gera sentido para a existência e quando ativamos esse exercício, o sentido de realização muda. A empatia é essencial para que você desenvolva o amor, e o amor é o caminho para que você conheça a verdade de uma vida com realização, propósito e paz interior.”

Antes de encerrar, volto para a fala de Joana do Intermuseus quando questionei qual seria para ela a “chave” para se colocar no lugar do outro. “Não sei se existe uma chave, acho que o principal ponto são as próprias relações cotidianas. Tem a ver com estar implicado no mundo em que vivemos, considerando a interdependência entre as pessoas e das pessoas com o planeta. Sensibilizar-se social e afetivamente.”

Joana e Maria do Sol reforçam o que comentei no início da matéria, a empatia vai mesmo muito além de calçar os sapatos do outro. Ela possibilita uma conexão mais verdadeira e profunda entre os seres, fortalecendo nosso senso de humanidade, compreensão, cooperação, equidade, tolerância, entre outros igualmente importantes. Em um mundo recheado de conexões virtuais, por vezes tão superficiais, a empatia propõe um novo modelo de relacionamento, uma guinada para um nível mais profundo, uma vez que nos conectamos oferecendo nosso melhor estado: o estado de presença. Quando nos colocamos no lugar do outro somos melhores pais, filhos, amigos, profissionais, melhores líderes e sem dúvida alguma, melhores indivíduos.

PS: Recentemente Sol escreveu o e-book “A Sua Melhor Perfomance” – versão reduzida do livro que está finalizando.  Aos leitores que queiram adquirir o e-book gratuitamente, basta clicar AQUI

Por Luah Galvão

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Idealizadores do Walk and Talk, Luah Galvão e Danilo España deram uma Volta ao Mundo por mais de 2 anos e visitaram 28 países para entender o que Motiva pessoas. Em seguida fizeram o Caminho de Compostela entrevistando peregrinos sobre Superação. Recentemente voltaram da Expedição Perú, onde focaram seu olhar para resiliência. Compartilham suas descobertas através de palestras e workshops por todo o Brasil.

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