Chief Spiritual Officer – um novo executivo para tempos de transformação

Conheça o CSO; ou Chief Spiritual Officer, um novo profissional que pode ser muito útil para sua organização diante de um mundo em transformação

Se eu fosse uma voyeur e tivesse a curiosidade de espiar o coração do seu negócio, indo direto ao centro vital de onde tudo parte, o que eu iria enxergar? 

Um centro com uma essência e um propósito bem definidos? Uma essência em coerência com as demais partes do ecossistema? Perceberia com clareza a tríade: “missão, visão e valores”? Aquilo que faz sua empresa, projeto ou organização únicos, seria claro?

Sim, não, talvez…

Se existe uma dúvida e o “não” e o “talvez” estejam ganhando protagonismo na questão, então, a boa notícia é que uma nova área está começando a ser delineada nas organizações. Ela pode até parecer filosófica, mas a necessidade pela busca de essência e coerência vem pedindo uma nova figura profissional: a do CSO; ou Chief Spiritual Officer (chefe executivo espiritual) – aquele que garante a preservação do espírito da empresa e de seu conjunto visão, missão e valores.

Muitas empresas nascem com um forte propósito, com uma essência definida por seu criador ou fundadores. Com o passar do tempo a salvaguarda desse centro pode se perder por inúmeros fatores: crescimento desorganizado/acelerado, mudança de visão, perda de uma liderança relevante, fusão com outras empresas, alargamento de seu escopo ou de seus produtos/serviços, pressão de um mercado voraz, entre outros fatores geradores de miopia, ou do distanciamento da essência original.

Quem me conectou pela primeira vez ao conceito do CSO foi Iradj Eghrari, então, antes de seguirmos, compartilho um pouco do seu perfil. Iradj é carioca filho de iranianos, consultor, palestrante, escritor e coach nas áreas de compliance, ética, direitos e valores humanos. Foi com ele que conversei para entender com mais profundidade esse conceito tão novo, ao mesmo tempo tão interessante. 

 (Arquivo pessoal Iradj Eghrari/Site EXAME)

Para Iradj o CSO é “aquele que preserva os princípios que garantem que a empresa não se perderá por conta de demandas do mercado, desejos pessoais ou do ego de seus gestores. Toda a empresa quando criada, nasce com uma visão, missão e valores definidos por seu fundador. Esses pilares devem se manter presentes na alma do negócio e consequentemente, serem de conhecimento de seus colaboradores.” 

Iradj se recorda que a primeira vez que ouviu falar sobre o conceito foi através de Ken Blanchard, autor do best-seller “O Gerente Minuto”. Ken se auto-intitulou CSO de sua própria empresa de consultoria e treinamentos a “The Ken Blanchard Companies”, que fundou em 1979 juntamente com sua esposa Margie Blanchard na cidade de San Diego. 

Mas afinal, quem é essa figura quase enigmática que zela pela manutenção dos principais pilares de uma organização. O CSO, assim como Ken Blanchard precisa ser sempre o fundador ou CEO de uma empresa? 

Para Iradj Eghrari, o CSO não precisa necessariamente ser um acionista, fundador ou colaborador da empresa. Seu perfil, no entanto, é de alguém mais sênior “…uma pessoa com certa bagagem e integridade pessoal, alguém com uma ampla visão de mundo e compreensão da realidade. O CSO é um guardião dinâmico dos valores da organização, pois sabe que todas elas passam por transformações, muitas vezes impactando sua cultura. É alguém focado em promover a integridade coletiva como seu maior patrimônio. O CSO é aquele que tem a percepção da alma da empresa ou da ‘espiritualidade corporativa’ desde uma percepção mais ampliada”. 

Para ilustrar a resposta de Iradj, lembrei- me de uma das histórias da Walt Disney Company que ouvi no curso “Disneylogia Supreme que fiz nos Estados Unidos junto ao Seeds of Dreams Institute. É conhecido pelos aficcionados no mundo Disney que Walt Disney mantinha um apartamento para o uso pessoal da família no parque da Califórnia (Disneylândia). O espaço foi montado no segundo andar do predinho do corpo de bombeiros que fica na Main Street. Depois de sua morte, a janela central desse segundo andar fica sempre acesa, simbolizando o espírito do seu fundador sempre “vívido” no parque. Walt Disney mais do que ninguém, soube deixar as diretrizes para perpetuar a missão, visão e valores de sua corporação que tem atravessado gerações à fio, sem se desprender de sua essência. Provavelmente Walt tenha sido um exímio CSO, mesmo que em sua época não fosse conhecida essa terminologia.

Mas não é sempre isso que acontece, muitas empresas depois do distanciamento de seus fundadores ou de um líder inspirador, começam romper com sua essência, desequilibrando o tripé “missão-visão-valores”. Aproveitei então para saber do meu entrevistado, quais os sinais ou evidências que mostram quando uma organização começa a se desconectar de seu centro.

Para Iradj, isso acontece quando uma empresa se afasta dos valores iniciais que a criaram: “É natural que a área de vendas queira vender, a produção queira produzir, e a área de compras queira atender às múltiplas demandas, mas é exatamente essa percepção compartimentada da empresa que leva, muitas vezes, à sua derrocada. Quando cada área quer fazer sua parte em detrimento das outras, perde-se a coesão, o senso de missão e sua capacidade de ver projetada sua visão no futuro, seus valores se deterioram e ela deixa de ser uma empresa que serve à sociedade”. E faz um alerta: “O que mais vemos no mercado são empresas que perdem a sua razão de ser pois se entregam de modo selvagem ao mercado. Muitos dos que agem assim tendem a não sobreviver. Pode parecer retórica, mas não é: o lucro é apenas uma decorrência da operação salutar da empresa.” E encerra essa resposta dizendo ser tarefa do CSO zelar para que sua organização não caia nessa armadilha.

Sigo o papo e pergunto para Iradj se a atual busca de muitas marcas e empresas por delinear um propósito de existência, e por consequência, ter mais ressonância junto aos seus clientes e consumidores, dialoga com o conceito do CSO. Para ele “O propósito é revelado quando a empresa sabe onde quer chegar, com que valores quer chegar, e como pretende servir seus clientes e a sociedade como um todo. O propósito parte do conjunto visão-missão-valores, sua busca está conectada com aquele que é o seu mercado, pois a razão de existir das corporações deixou de ser simplesmente a de produzir bens ou serviços, mas sim servir. A mudança de verbo foi fundamental. A empresa passa a perceber o seu cliente como destinatário final, pois é a ele que ela serve, seja produzindo bens ou ofertando serviços. O espírito da empresa não pode ser apenas vender, produzir ou ofertar serviços a qualquer custo. Ela tem que estar realmente alinhada aos anseios, desejos e necessidades do seu cliente. Só assim as duas almas estarão em real conexão. O papel do CSO também é o de perceber se o espírito da empresa está conectado ao espírito de seu mercado consumidor.”

Peço para meu entrevistado algumas dicas úteis para uma empresa que esteja buscando estruturar ou reestruturar sua essência. Ele inicia a resposta falando sobre a verdade, como base ou raiz de todas as virtudes humanas. “… talvez ela seja a rainha de todas as virtudes, pois como podemos conceber, cooperação, honestidade, competência, etc, se não houver verdade? Em uma empresa não é diferente, se ela pretende buscar sua essência, tem primeiramente que aprimorar os mecanismos em que a verdade seja valorizada, estabelecendo assim uma cultura de transparência. O segundo elemento fundamental é retomar a linha de tempo da organização, recordando sua visão, missão e valores, reconstituindo sua história ao mesmo tempo em que se percebe onde ela se encontra agora. E por fim, ganhar a confiança de seus colaboradores para que sintam-se como partícipes do processo desse encontro com a essência.”

Questionei se meu entrevistado conhecia algum exemplo aqui no Brasil de uma empresa alinhada ao conceito do CSO. “Um nome que eu gostaria de destacar no cenário brasileiro que é o de Foad Shaikhzadeh. Foad é CEO da Furukawa Electric LatAm, uma empresa japonesa que já traz consigo uma série de valores, e como líder, foi capaz de inspirar seus colaboradores para transformarem e consolidarem a alma da organização. Foi como consultor contratado pela Furukawa que tive a oportunidade de ajudar a ampliar na empresa a sua dimensão de auto-percepção e auto-transformação.”

Para finalizar, Iradj resume nossa conversa citando 3 características das empresas abertas à implementação dos conceitos do CSO:

– A liderança da empresa deve estar aberta à crítica e bem pacificada com questões relativas ao ego de seus dirigentes.

– A empresa deve estar aberta a revisitar os seus valores e processos e relembrar seus colaboradores de qual o seu propósito e a razão da sua existência. 

– A empresa deve praticar a qualidade da veracidade, buscar a devida transparência de acordo com cada nível hierárquico. E ser uma empresa sem segredos internos.

Hoje, diante das macromudanças que estamos todos experimentando, muitas profissões, empresas e corporações tendem a se transformar completamente, ou até, desaparecer. Os negócios sem alma ou coração, aqueles desconectados de sua essência, portanto mais frágeis, certamente, vão sofrer um impacto muito mais forte. Olhando para um cenário de mudanças tão exponenciais é hora de voltar ao centro vital, buscar um realinhamento de seus principais pilares e valores, e questionar qual é o real propósito de sua existência. O texto foi todo sobre negócios, empresas e corporações, mas nesse parágrafo, incluo também eu e você, afinal o tempo de transformações é para todos nós; pessoas jurídicas ou físicas. E quem sabe possamos ocupar o cargo de CSO de nossas próprias jornadas.

Por Luah Galvão

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Idealizadores do Walk and Talk, Luah Galvão e Danilo España deram uma Volta ao Mundo por mais de 2 anos e visitaram 28 países para entender o que Motiva pessoas. Em seguida fizeram o Caminho de Compostela entrevistando peregrinos sobre Superação. Fecharam a tríade de viagens pesquisando “Resiliência” no projeto que batizaram de “Expedição Perú” Compartilham suas descobertas através de palestras e workshops por todo o Brasil.

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