Patti Smith em São Paulo: “Estar vivo é ser otimista”

Cantora e escritora, que se apresenta pela primeira vez em São Paulo, falou para o público no Sesc Pompeia

São Paulo – É a primeira vez que Patti Smith, lenda do rock, poeta e escritora, visita São Paulo. Ao desembarcar, cantora e banda foram ao despretensioso Rei do Caldo, lugar que Patti definiu como o seu “new favourite”. Ótima maneira de começar a explorar a cidade.

Em 2009, ela se apresentou em Porto Alegre. Dez anos depois, desembarca em São Paulo para duas apresentações amanhã (15) e sábado (16), no Popload Festival (onde tocam também Hot Chip e o The Raconteurs de Jack White) e em show beneficente no Auditório Simón Bolívar, com ingressos esgotados.

Ela também aproveitou a vinda ao País para divulgar seus dois últimos livros que ganharam tradução no Brasil, em edições da Companhia das Letras: “Devoção”, de 2017, e “O Ano de Macaco”, de 2019. A mesma editora também lançou “Linha M” (2015) e “Só Garotos” (2010).

Hoje (14) no Sesc Pompeia, em São Paulo, Patti falou para o público sobre seus livros, processo de escrita, influências literárias e rotina de trabalho. Também falou sobre suas preocupações com o futuro do planeta, que vive caos político e ambiental. Apesar dos temores, diz que se mantém otimista.

"O ano do macaco", de Patti Smith “O ano do macaco”, de Patti Smith

“O ano do macaco”, de Patti Smith (Companhia das Letras/Divulgação)

“O Ano do Macaco” fala do ano de 2016, que Patti definiu como um ano difícil, sombrio, místico. Não à toa, diz ela, era o ano do macaco no horóscopo chinês. Fazia sentido. Em um ano solitário, marcado por perdas e luto, Patti sente algo de terrível por vir. O panorama político dos Estados Unidos explicou a sombra: em novembro, Donald Trump é eleito presidente. É nesse tom onírico, de coisas inexplicáveis, que Patti escreve sua prosa de não-ficção. Mas à realidade se misturam sonhos noturnos, sonhos diurnos, delírios e imaginação. Como “Alice no País das Maravilhas”. “Esse livro nunca foi nonsense para a minha mente. Sempre achei que nele havia lógica, desde criança”, diz.

“Em ‘Só Garotos’, há apenas fatos. Um relato fiel. Robert Mapplethorpe, um dia antes de morrer, me fez prometer que eu escreveria fielmente sobre nossa juventude. E foi isso que fiz. É um relato linear no passado. ‘Linha M’ é também sobre o passado, estava olhando para a morte de meu marido [Fred Smith, da banda MC5, morto em 1995]. Há fatos, mas também sonhos. Mas ‘O Ano do Macaco’ foi escrito enquanto as coisas aconteciam. Tanto que uso os verbos no presente. Não há nada sobre olhar para trás, o caderno de anotações era meu único companheiro. É um livro irresponsável, metade sonhando e metade sonhando acordada”.

“Meu editor não gostou do livro quando lhe mostrei o original. Era muito abstrato. Ele me deu algumas sugestões, boas ideias. Acatei algumas, fiz modificações. Ele ficou mais amigável aos leitores, ficou melhor. Não gosto muito de ser editada, mas costumo ouvir 20% das sugestões que me fazem. Tenho a mente aberta, mas não muito”.

Patti também falou ao público sobre seus livros e autores prediletos, o que está lendo no momento e sua relação com a literatura. Relação de amor e devoção que fica clara em seus relatos. Em “Devoção”, a metade “ensaio” do livro (a outra é um conto) é uma resposta para a provocação “Por Que Escrevo”, a partir de um prêmio de Yale. Em “Linha M”, Patti conta sobre seu ritual de visitar túmulos de escritores que admira. Ela foi até o Marrocos, por exemplo, depositar pedras no túmulo do escritor francês Jean Genet, cujo trabalho admirava desde a juventude, mas que não conhecera pessoalmente. As pedras não eram pedras quaisquer: ela as buscara décadas antes, na Guiana Francesa, na ilha de Saint-Laurent du Maroni, onde havia uma colônia penal que Genet descrevia com tanta devoção em seu livro “Diário de Um Ladrão”. Genet morreu sem conseguir conhecer a ilha. Patti decidiu reunir escritor e ilha simbolicamente. 

“Já visitei túmulos de muitos escritores que amo. Sylvia Plath, W. B. Yeats. Quando eu era criança, o meu namorado era o Rimbaud. Sem ele saber, claro”, diz. Sobre sua paixão por literatura de diversos países, como suas postagens no Instagram revelam, assim como passagens de suas obras, ela conta: “Claro que gosto dos escritores de expressão inglesa. Salinger, Melville, Whitman, meu amigo Allen Ginsberg. Mas acredito que a literatura mais interessante para mim está naquela que precisa ser traduzida. Gosto de escritores que possuem uma mente expansiva, imaginativos. Não me atraio por livros onde a imaginação não é prioridade”.

Patti cita sua paixão pelo escritor chileno Roberto Bolaño, morto em 2003, e seu livro “2666”. Fala também com paixão de sua leitura atual, seu livro predileto do momento, também do Chile: “Space Invaders”, de Nona Fernández. “Em um livro tão pequeno cabem tantas coisas”. Outras dicas de leitura para os fãs? “Se eu falar um livro, vou acabar falando cem. ‘Pinóquio’, ‘O Apanhador no Campo de Centeio’, são muitos. O meu conselho para as pessoas é: leiam! Leiam até achar aquilo que lhes toca profundamente”. 

A paixão por livros vem desde criança: “Minha mãe me ensinou a ler e a rezar. Não tenho religião, mas acredito que muitas coisas podem ser preces. Poemas, por exemplo. Gosto de visitar lugares religiosos, onde você pode sentir no ar a concentração e a devoção das pessoas”.

Sobre os anos turbulentos do século 21, de notícias preocupantes, de políticos criminosos e desastres ambientais, Patti pede aos leitores e fãs que se mantenham otimistas: “Estar vivo é ser otimista. Não há como ser diferente. Enquanto estivermos vivos, poderemos mudar alguma coisa. Não estou querendo dizer que não estou preocupada. Mas acredito na vida e em fazer o meu trabalho”.