Humpty Dumpty e o destino britânico

Humpty Dumpty sat on the wall

Humpty Dumpty had a great fall

All the king’s horses and all the king’s men

Couldn’t put Humpty together again

Na semana que passou, o Reino unido saiu do muro. Na semana que passou, Theresa May assinou a carta da queda fatídica. A Grã-Bretanha ainda não se espatifou, mas passará por dois árduos anos antes que isso aconteça. E, acontecerá. Afinal, divórcios e Brexits são rupturas. Diferentemente de processos de integração, em que os ganhos não são necessariamente imediatos, mas contínuos e graduais – razão para que sejam tantas vezes ignorados –, rupturas são descontínuas por definição, o baque é súbito. Acionado o artigo 50 do tratado que rege a União Europeia, o Reino Unido apenas sentirá o baque quando sair de fato, em março de 2019.

Na última quarta-feira, Theresa May enviou a carta de divórcio para a União Europeia. Nela, afirmou que a prioridade de seu país é negociar com parceiros e vizinhos um acordo abrangente para a comercialização de bens e serviços, atrelando tal desejo aos interesses comuns na área de segurança internacional. Quase imediatamente recebeu rebarba de Guy Verhofstadt, o membro do Parlamento Europeu responsável pelas negociações do Brexit. Disse ele: “segurança é tema demasiado importante para ser tratado como elemento de barganha em um acordo econômico”. A resposta ríspida sugere que o processo iminente de divórcio deverá ser bastante contencioso. Até porque as prioridades das partes envolvidas são, por ora, ortogonais.

O Reino Unido quer começar logo a negociação sobre o acordo econômico, já que será obrigado a sair do mercado único. Avanços e vitórias nas tratativas sobre o acordo reduziriam as incertezas que hoje pairam sobre a City – nuvens mais cinzentas e carregadas do que a norma londrina. Diversas instituições financeiras já anunciaram planos de mudar-se para Dublin, Frankfurt, Paris, Luxemburgo, e, até, Valetta. Valetta, a bela cidade no arquipélago de Malta. Boa parte do PIB do Reino Unido provém de serviços financeiros. O encolhimento da City, portanto, nada tem de alvissareiro.

Os europeus – chamemo-los assim, ainda que May tenha enfatizado ser a ilha parte da Europa – não estão interessados em discutir acordo algum, não agora. Os europeus estão interessados nos termos do divórcio, na pensão, no montante que o Reino Unido terá de pagar para ressarcir a União Europeia por compromissos assumidos. Dizem que a Grã-Bretanha deve à Europa cerca de 60 bilhões de euros, o que equivale a todo o orçamento de defesa da ilha. Os europeus querem também discutir imigração. O que será dos 3,3 milhões de indivíduos que vivem e trabalham no Reino Unido? E os 1,2 milhão de britânicos que moram no continente? Essas perguntas não são triviais.

Entre os 1,2 milhão de britânicos continentais, 300.000 estão na Espanha, boa parte curtindo a aposentadoria. Hoje, recebem suas pensões no Reino Unido, transferem seus rendimentos para alguma cidade ensolarada, e têm direito a usufruir dos sistemas de saúde do mediterrâneo. Em apenas dois anos, não se sabe o que será desses direitos. Quanto aos 3,3 milhões de europeus na ilha, entre eles acadêmicos, alunos, e, claro, o bombeiro polonês, tampouco se sabe o que ocorrerá. Mas, que a vida de todos ficará mais difícil, isso é certo. Afinal, a premissa do Brexit é fechar fronteiras, acabar com a livre circulação de pessoas.

Pode ser que, ao final, o Brexit não acabe tão mal. Pode ser que May consiga negociar bom acordo no período exíguo de dezoito meses – sim, dezoito, pois todos os parlamentos terão de aprovar o que quer que seja antes de se encerrar o prazo de dois anos. Mas, pode ser que não. Pode ser que a ilha encolha, fique menos cosmopolita, menos atraente, mais cinzenta e nublada, apagada. Ou, pode ser que o destino de Humpty Dumpty se abata sobre a Grã Bretanha. Nem todos os cavalos, nem todos os cavaleiros. Pobre da rainha, que viveu mais de 4 décadas dos seus 65 anos de reinado dentro da Europa, ainda que separada pelo canal.

MONICA-DE-BOLLE

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