A recuperação econômica segue o manual

Os dados divulgados pelo IBGE sobre as condições do mercado de trabalho se encaixam perfeitamente no roteiro da recuperação cíclica

Os dados divulgados pelo IBGE na última semana sobre as condições do mercado de trabalho se encaixam perfeitamente no roteiro da recuperação cíclica que está ocorrendo na economia brasileira. Queda do desemprego pela geração de novos postos de trabalho, ainda que majoritariamente no campo da atividade informal. A população ocupada aumentou 1,4 milhões em relação ao trimestre anterior e mais de 1 milhão em relação ao mesmo trimestre de 2016. Os trabalhadores por conta própria cresceram 2,1% e os trabalhadores sem carteira assinada 2,7%. O emprego formal com carteira assinada ficou estável em relação ao trimestre anterior, mais ainda apresenta uma queda de mais de 700.000 postos de trabalho quando comparado com o ano passado.

Este quadro de melhora, concentrada nos setores informais, só vai se alterar mais a frente quando o crescimento da economia se acelerar e a confiança dos empresários leva-los a contratar novo trabalhadores com contrato formal. Mas já deixamos para trás o período de demissões e a recuperação do emprego vai continuar de forma mais acelerada e consistente. Com isto completa-se o movimento de recuperação cíclica da economia e, nos próximos meses, o crescimento do PIB deve acelerar-se. É o que nos ensina a leitura correta do manual sobre situações de bolha de consumo que estoura sob o peso dos desequilíbrios de oferta que acontecem em situação como esta.

O caso brasileiro, quando este período que vivemos depois da reeleição de Dilma Rousseff virar um fato histórico, deve ficar como um paradigma das causas e dos custos econômicos e sociais de uma política econômica populista e irresponsável. Por isto é importante que ele seja registrado com clareza para que novos governantes não decidam trilhar este caminho novamente. Vale a pena ressaltar que saímos da ruptura da bolha criada pelo PT sem nenhuma crise em nosso sistema bancário, ao contrário do que ocorreu nos Estados Unidos e na Europa recentemente.

Por esta razão estamos nos recuperando mais rapidamente do que estes países. Isto aconteceu graças ao PROER, programa de saneamento dos bancos brasileiros, executado no mandato de Fernando Henrique, e que tanta crítica gerou à época do PT e de outros partidos de esquerda associados a eles. O presidente do BC à época, Gustavo Loyola, passou anos respondendo a processos movidos por petistas e está hoje na galeria dos heróis que lutaram e caíram para ajustar a economia brasileira no final do século passado.

Neste sentido gostaria de trazer ao leitor de EXAME um balanço dos aspectos positivos da crise que vivemos e que ajudam a minorar um pouco os sofrimentos e dificuldades que passamos nestes últimos dois anos. O mais importante deles é o fato de que, o descasamento entra a oferta e a demanda em mercados críticos para o equilíbrio de nossa economia, hoje não existem mais. Sob o peso de uma redução de mais de 10% na absorção interna de produtos e serviços, as pressões insustentáveis que existiam sobre o mercado de trabalho, a conta corrente externa e os preços livres da nossa economia desapareceram e vivemos hoje uma grande folga em todos eles.

Em outras palavras voltamos ao ponto inicial do ciclo econômico que se repete de tempos e tempos na economia brasileira. Podemos agora voltar a crescer desde que a política econômica do governo – como espero vai acontecer – utilize de instrumentos corretos para estimular a demanda e o investimento. A folga na conta corrente externa e a entrada de capitais de investimento garantem que novos choques externos não devem ocorrer, garantido a estabilidade da taxa de cambio. Por outro lado, a demanda ainda abaixo da capacidade de oferta da economia vai permitir o BC trabalhar em um cenário favorável em relação aos mecanismos de indexação dos preços, mesmo em um cenário de juros menores do que seu nível estrutural de equilíbrio. E a recuperação do emprego vai progressivamente fazer com que o consumidor saia da posição defensiva dos

últimos anos e volte a se endividar e consumir. A última etapa será a volta do investimento privado.

Este cenário a ser herdado pelo próximo governo cria as condições objetivas para que a reforma da Previdência e a questão fiscal de estados e municípios possam ser enfrentados.

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