A morte do cachorro do Carrefour é diferente da de bois e vacas?

A morte do cachorrinho no Carrefour foi um ato desumano. A morte de milhões de bois diariamente não é?

O assassinato cruel de um cachorro num hipermercado Carrefour em Osasco (SP), no dia 30, deixou o país inteiro indignado. É curioso como a morte intencional de um cachorro desperte mais a nossa compaixão (e a nossa ira contra o assassino) do que a de um ser humano, embora essa seja, objetivamente falando, muito mais grave. Não estou criticando, apenas observando um fato – que se aplica, inclusive, a mim.

O cachorro tem, a nossos olhos, uma inocência, uma pureza, uma bondade essencial, que torna atos de maldade contra ele especialmente odiosos. Ele é aquilo que é, sem duplicidade; quer o bem das pessoas e nem sequer compreende o que é querer o mal. Não entende quando alguém o quer matar, e é essa falta de compreensão da maldade humana que nos apieda. Ele é como uma criança. Do nosso ponto de vista (que inevitavelmente projeta sobre o bicho sentimentos e subjetividades nossas), ele é mais humano do que um humano.

Não estendemos o mesmo benefício a outros animais, mesmo aqueles que são tão ou mais inteligentes que um cachorro. Porcos, bois, frangos: a maioria de nós é responsável pela morte de dezenas deles a cada mês. A bem da verdade, mesmo a morte de cachorros para a culinária chinesa não me parece nem um pouco mais condenável do que a dos bichos comuns em nossa culinária. E notem: não precisamos de carne de animais para nos alimentar; é perfeitamente viável (e até mais barato e melhor para o meio-ambiente) viver com uma dieta vegetariana e tomar alguns suplementos. Ou seja: a razão pela qual matamos tantos animais não é para nos alimentar, e sim para sentir prazer ao comê-los. Somos tão monstruosos quanto o segurança que matou o cachorro no Carrefour?

É claro que não. Então qual a diferença, se em ambos os casos bichos estão sendo mortos de maneira violenta para o prazer e/ou a conveniência dos homens? A diferença não está nos bichos, e sim em nós. Ou melhor, na relação que nós estabelecemos com o animal. Ao criar o vínculo emocional com ele, ele deixa de ser um bicho qualquer e se torna, do nosso ponto de vista, uma pessoa, um alguém. Nosso bicho de estimação tem nome e história; os bichos na fila de abate são um número impessoal.

Somos seres contraditórios. Nossa empatia não se estende igualmente a todos os seres. Ninguém sentiria a menor indignação se soubesse que o segurança do hipermercado matou um rato (e não tem nada a ver com ele ser um vetor de doenças. Se o cachorrinho estivesse com uma doença infecciosa as pessoas exigiriam que ele fosse afastado de forma humana, e jamais morto a pauladas). Não derramamos uma gota de lágrima pela bisteca em nosso prato, mas se acompanharmos a vida de um leitãozinho na fazenda faremos de tudo para evitar seu abate.

Os veganos tentam eliminar essa arbitrariedade da vida humana. Fazer com que nossos atos para com os animais não dependam mais do sentimento volúvel da empatia, mas de uma concepção objetiva de direitos universais. Resta responder, contudo: com que finalidade fazem isso? Por que prejudicar o bem-estar humano para que bois e ratos sem nome possam viver melhor?

Prefiro conviver com a inescapável arbitrariedade de nossos sentimentos. A morte do cachorrinho no Carrefour foi um ato desumano. A morte de milhões de bois diariamente não é. No primeiro caso, a morte viola nossos sentimentos mais valiosos de compaixão e empatia. No segundo, esses sentimentos nem surgem. E essa diferença não vem dos bichos, e sim de nós. O homem é a medida de todas as coisas; até do valor da vida animal.

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