“Ser contra” não é “querer proibir”

Deixar que discussões sejam dicotômicas impede a liberdade de expressão

É incrível como o debate no Brasil – quando existe – se deixa dominar por uma mentalidade binária e empobrecedora. Os mesmos esclarecimentos elementares têm que ser feitos sempre a cada nova discussão, ou então muitos interlocutores sequer compreenderão o que está sendo discutido.

Um exemplo disso é a conflação, quase automática, que se criou na mentalidade do público entre ser contra uma certa prática e defender que ela seja proibida. Essa confusão ocorre nos mais variados debates, e em todos eles ela impede uma discussão substantiva dos méritos em questão em favor de uma polêmica mais acirrada e socialmente danosa sobre proibir ou não proibir, processar ou não processar, censurar ou não censurar.

Uma figura pública escreve ou diz algo infeliz. Criticamo-la. A resposta infalível que vem a seguir é que a tal figura pública tem o direito à liberdade de expressão, mesmo que isso jamais tenha sido questionado. Posicionar-se contra a fala, o texto ou a piada de alguém não é querer que ele seja censurado ou deixe de existir.

Da mesma forma, criticar uma empresa por uma decisão de marketing, por mudança de estratégia, por uma demissão de funcionários, é recebido imediatamente como se expressasse o desejo de proibir a empresa de agir como bem quiser.

É claro, essa confusão conceitual é em parte consequência de uma tendência real no Brasil: querer de fato proibir tudo aquilo de que não se gosta: substâncias com algum efeito nocivo, empregos considerados ruins, atos considerados imorais, qualquer produto ou serviço que não se adeque ao modelo ideal, uma piada que passou do ponto; a solução espontânea para tudo isso costuma ser a simples proibição.

Entre aquilo que é absolutamente inaceitável – por incompatível com o bom funcionamento da sociedade – e portanto proibido, e aquilo que é bom e desejável, há um imenso espectro de ações com aspectos positivos e negativos, e outras francamente negativas mas cuja proibição ensejaria problemas ainda maiores. Para promover boas práticas dentro desse espectro, contamos com uma série de instituições e hábitos: opinião pública, códigos de boas práticas, confiança mútua, reputação, honra, prestígio, ética, etiqueta.

E para que isso funcione de maneira minimamente eficaz, é preciso que exista, no discurso público, espaço para discussão crítica que vá além da dicotomia “proibir/permitir”; pois é essa discussão que alimentará a opinião pública.

Ao restringir a discussão crítica da conduta humana apenas à questão da proibição, fomentamos a mentalidade puramente relativista para a qual há apenas aquilo que é mau e proibido e, dentro dessa fronteira, o espectro homogêneo e indiferente da liberdade sem parâmetros. Abandona-se a opinião pública às paixões arbitrárias do momento, ela se torna mais dada a extremos e a respostas exageradas. E daí perde-se a cultura que sustenta a possibilidade da liberdade de espírito, em favor de paixões autoritárias.

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