Sem médicos cubanos, todos perdem

Bolsonaro tem a chance de emergir dessa história com uma grandeza inesperada. Se, da posição dura inicial, ele evoluir para um contrato melhor com Cuba

A relação de importação de profissionais médicos de Cuba pelo Brasil está longe de ser perfeita. Mesmo assim, ela é benéfica para as populações de ambos os países, em especial aqueles que mais precisam.

Ao invés de se guiar por critérios de mercado, a formação do capital humano em Cuba obedeceu ao desígnio político do governo, que focou em medicina à exclusão de muitos outros setores. Inegavelmente, a saúde em Cuba é melhor do que, por exemplo, o estado da construção civil, da infraestrutura, das ciências puras, dos serviços, etc. E pelo mesmo motivo, há uma superabundância de médicos. Em muitos países, como no Brasil, há uma escassez. Por isso, faz sentido econômico para o Estado cubano exportar os médicos locais e, com isso, ter recursos para importar bens e serviços que faltam à ilha (bem como a movimentação do mercado interno pela renda extra enviada pelos médicos às suas famílias e pelas mercadorias que trazem consigo na bagagem de volta para casa).

Os serviços médicos são, hoje, de longe a maior exportação cubana. E o Brasil tem sido o segundo maior cliente, depois da Venezuela. Para o Brasil, também faz sentido: há falta de médicos em regiões pobres do interior do país, vagas que não estão sendo preenchidas por profissionais brasileiros. As demandas dos médicos brasileiros muitas vezes são justas: falta estrutura, utensílios. O problema é que resolver isso requereria mais investimento público, sem falar no preço mais alto dos médicos brasileiros. Dado que o Estado já está sem dinheiro, que a melhora na estrutura demorará algum tempo e que a população carente precisa de cuidados agora, faz todo sentido importar médicos cubanos e de outros países.

O médico cubano, ainda que não tenha o mesmo grau de formação técnica do brasileiro, é especialista justamente no tipo de cuidado preventivo e assistencial a pessoas carentes, com problemas de saúde comuns e que, ainda assim, causam muito sofrimento e mortes em áreas desassistidas.

A OPAS, empresa estatal cubana que cuida da terceirização desses médicos e outros profissionais da saúde para vários países, fica com a maior parte da receita: 70% do que o Estado brasileiro paga vai para os cofres públicos, e não para os médicos. Ainda assim, esse médico ganha mais do que ganharia em Cuba, e por isso muitos médicos cubanos querem participar do programa. Para eles, além da experiência, é a chance de ter um aumento de renda e de levar mercadorias para casa.

Para milhões de brasileiros que vivem em condições muito precárias e são atendidos por esses médicos, é a diferença entre a saúde e a doença; às vezes, entre a vida e a morte. O médico cubano pode não ser tão bem formado quanto o brasileiro; ainda assim, é infinitamente melhor do que médico nenhum. Por isso, a população assistida aprova em peso o trabalho dos cubanos.

Pode-se criticar, com razão, as condições impostas ao trabalhador cubano pela OPAS, mas o fato é que ele não é escravo. Não é forçado a vir e é remunerado. Uma fração deles deserta e pede asilo no país de trabalho, como foi o caso da médica Ramona Rodriguez aqui no Brasil em 2014. Hoje, ela vive em Miami.

Bolsonaro tem a chance de emergir dessa história com uma grandeza inesperada. Se, da posição dura inicial, ele evoluir para um contrato melhor com Cuba – por exemplo, pagando menos por médico ou garantindo que uma porcentagem maior do pagamento vá para os profissionais – ele assegurará o bem-estar da população brasileira e a melhora das condições de trabalho dos cubanos. O governo cubano terá interesse nisso, posto que o país atravessa uma maré econômica ruim, com o fechamento americano. Contudo, se se mantiver na posição ideológica e caricata que vem mostrando, tanto brasileiros quanto cubanos vão sair perdendo. Direita ou esquerda, ninguém quer isso.

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  1. Julio Rodrigues Neto

    A Ditadura cubana, não pode, e não deve ser sustentada pelo Brasil. Temos infinitas prioridades, que não podem ser minimizadas, e nem substituídas por manutenção de “companheiros”.