Quem quer a instabilidade no Brasil?

Com falas sobre AI-5 e GLO e com o projeto do excludente de ilicitude o governo está desafiando a oposição a tomar as ruas

Neste momento, o povo brasileiro só está tomando as ruas para enfrentar o governo em dois lugares: no discurso de Lula e no discurso do governo. Fora deles, não há uma viva alma protestando nas ruas. A população está cansada de tanta briga, quer trabalhar, quer crescer, quer que o país dê certo, tem uma boa tolerância com trapalhadas do governo desde que a recuperação econômica (em particular a melhora do emprego) continue.

Imagino que tenha sido uma decepção para o petismo ter Lula livre. Livre mas sem nenhuma perspectiva de disputar eleições (e com a condenação do caso do sítio em segunda instância, esse sonho fica ainda mais distante). O que Lula pode fazer é mobilizar a população, mas não parece estar sendo particularmente eficaz. Mesmo agora, embora consiga juntar plateias onde quer que vá, não consegue colocar as pessoas para “lutar” de forma mais ativa contra o governo. E logo a opinião pública cansará da novidade que é ter Lula solto e falando por aí, e sua capacidade de causar instabilidade deve cair.

Isso se Bolsonaro não cooperar. Todas as falas sobre AI-5, sobre GLO, o projeto do excludente de ilicitude para quando a política ou exército enfrentar protestos violentos, tudo isso é uma verdadeira provocação. O governo está desafiando a oposição a tomar as ruas. E, como bem sabemos, o único efeito de se desafiar alguém com uma ameaça é aumentar na pessoa desafiada o desejo pelo enfrentamento.

Ambos sonham com o Chile: de um lado, para desestabilizar ou mesmo derrubar o governo; do outro, para justificar o aumento de poder do Executivo e estrangular instituições e direitos civis.

O novo partido que Bolsonaro pretende criar, a Aliança Pelo Brasil, coloca os protestos de junho de 2013 como um momento capital da tomada de consciência do povo brasileiro contra as elites corruptas que o governam. Diz o programa do partido: “Em 2013, o povo brasileiro, outra vez, disse ‘não’ aos donos do poder. Desta vez, não o fez em um referendo convocado por burocratas e passível de ser ignorado, mas nas ruas, de onde bradou, ainda que sem muita clareza, que desejava tomar o destino da nação em suas próprias mãos e conduzi-la para as mudanças que tanto ansiava. Era o início do fim da espiral do silêncio, por tanto tempo.” Curiosamente, se a população ensaiar um novo junho de 2013 agora, a resposta do governo é inequívoca: vai atirar para matar. É para isso que serve o excludente de ilicitude em GLO.

Os planos autoritários dos dois polos de nossa polarização só precisam acertar com o elemento faltante: o povo. Lula não tem conseguido as massas esperadas, e os famosos protestos de domingo para apoiar Bolsonaro estão cada vez mais minguados.

O que pode mudar isso? Algum ato muito ultrajante do governo (como foram percebidos, por exemplo, os “cortes” de orçamento no ensino superior no início da gestão Weintraub) ou alguma piora específica de condições econômicas. Pela experiência de Equador, Chile, França e outros países, o preço do transporte ou do combustível – em particular, do diesel, que alimenta o transporte de bens no país – é uma área sensível.

Assim, a alta do dólar, que aparentemente veio para ficar, trará um desafio para o governo. Ele terá que escolher entre deixar os preços dos combustíveis subirem livremente ou controlá-los de alguma maneira. No primeiro caso, arriscam uma revolta popular, uma reedição da greve dos caminhoneiros – classe para com a qual Bolsonaro sempre se mostrou muito solícito. No segundo, será um sinal claro para o mundo de que o mercado brasileiro continuará distorcido pelo dirigismo estatal, prejudicando nossa imagem junto a investidores e gerando desequilíbrios tais como os que a política de preços de Dilma criou.

Se optar por manter seus compromissos com o livre mercado e enfrentar uma possível reação popular… bem, não se assustem se falarem em AI-5.