O governo Bolsonaro é cristão?

Bolsonaro tem capitalizado muitos brasileiros cristãos ao mesmo tempo em que sua política vai na direção contrária do ensinamento cristão

Bolsonaro foi eleito em uma plataforma ostensivamente cristã, que promete inclusive proteger e avançar a causa da religião. Em toda oportunidade que tem, diz que embora o Estado seja laico, ele próprio é cristão. Seu lema de campanha incluía Deus. Ele já fez menção de que a religião evangélica será um critério para sua indicação de ministro no Supremo Tribunal Federal. Fez questão de participar da Marcha para Jesus no mês passado.

Contudo, quando olhamos para suas propostas e valores, a impressão é bem diferente.

O cristianismo prega, acima de tudo, o valor do perdão, a possibilidade de redenção mesmo para quem cometeu os piores crimes. Seguindo essa lógica, diversas igrejas cristãs fazem um trabalho pastoral junto a presidiários. Bolsonaro, por outro lado, prega a morte de criminosos como um bem em si, e a violação de presos nas prisões como algo aceitável e talvez até desejável.

O cristianismo acredita na dignidade da pessoa humana, que não pode ser violada em hipótese alguma. Bolsonaro já defendeu publicamente a tortura e a execução sumária.

O cristianismo prega que sua mensagem é universal, aberta a todos os povos, e que portanto o esforço para com outras populações é, antes de tudo, missionário, e não de dominação ou de extermínio. Por isso, por exemplo, missionários cristãos foram dos mais ardorosos defensores de grupos indígenas na América contra a sanha escravocrata de bandeirantes e colonizadores. Bolsonaro, por outro lado, é inimigo jurado dos indígenas, querendo submetê-los ao interesse da expansão agrária.

De todos os temas sobre os quais ensinava, um dos quais Jesus mais frisou foi a atenção e o cuidado aos pobres. Por isso, além da caridade privada, o ensinamento social e político da maior parte das igrejas e partidos cristãos tradicionalmente sempre incluiu um cuidado especial com políticas voltadas aos mais necessitados. Para o governo Bolsonaro, no entanto, o tema política social parece estar completamente ausente.

O cristianismo, por fim, tem uma visão bastante conservadora da sexualidade humana. Ao mesmo tempo, sua finalidade com isso é a preservação de uma convivência que promova o valor do amor desinteressado e um clima propício para famílias. Acima de tudo, ensina a modéstia, para preservar as sensibilidades. Embora abrace a causa da moral conservadora, Bolsonaro o faz de maneira sensacionalista (por exemplo, twittando sobre “golden shower”), de forma não a promover uma cultura menos saturada de sexo, e sim um clima constante de histeria e pânico moral, esses sim deletérios ao ambiente sadio para a convivência humana.

Uma coisa é a fé cristã: as crenças sobrenaturais e o ensinamento moral que o fiel segue por acreditar sinceramente que Deus se revelou aos homens em Jesus Cristo. Outra coisa é a organização política das pessoas que se identificam como cristãs, seja via igrejas ou apenas como eleitores de políticos que apelam a essa identidade. (Eu, pessoalmente, não acredito no aspecto sobrenatural da religião, mas valorizo muitos dos seus ensinamentos morais e seu legado social e civilizacional.)

Bolsonaro tem capitalizado nessa identidade política de muitos brasileiros, ao mesmo tempo em que a tônica dominante de sua política vai claramente na direção contrária do ensinamento cristão. Reveste-se da aparência, da identidade socialmente reconhecida, mas parece – enquanto pessoa pública – ter pouca afinidade com a substância. Como ensinou o próprio Jesus (Mateus 7,21): “Nem todo o que me diz: ‘Senhor, Senhor!’ entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.”

Não há pecado nenhum em não ser cristão; eu mesmo divirjo de pautas consideradas importantes por muitas igrejas. Mas precisamos chamar as coisas pelo que elas são; ou, no caso, não chamá-las do que elas não são.