O dilema do porteiro

Num momento em que o governo monta uma guerra retórica contra a imprensa profissional, um caso como esse cai como uma luva para a narrativa presidencial

Ainda existem algumas pontas soltas na história do porteiro do condomínio de Bolsonaro que o teria ligado ao assassinato de Marielle Franco: como é que o apartamento de Bolsonaro consta no livro de registros, supostamente escrito no próprio dia do ocorrido? Se o MP considerava o depoimento do porteiro falso, por que o encaminhou à PGR e ao STF? Por que a perícia dos áudios do interfone pelo MP só foi concluída na quarta-feira, isto é, depois de estourado o escândalo midiático?

Dito isso, desde que a promotora Simone Sibilio asseverou que o depoimento do porteiro era falso e em contradição com as evidências técnicas disponíveis, o mais provável é que a história toda seja mesmo um equívoco, um pista enganosa (cujos motivos ainda devem ser objeto de investigação) que levantou muita poeira e não revelou nada. E a Rede Globo, embora não tenha veiculado nenhuma informação falsa (afinal, o porteiro realmente deu o depoimento reproduzido pela emissora), acabou contando uma história incompleta e que, para os ouvidos do grande público, soará como uma mentira politicamente motivada.

Num momento em que o governo monta uma verdadeira guerra retórica contra a imprensa profissional, procurando fidelizar a população apenas à palavra de suas lideranças políticas e respectivos bajuladores, um caso como esse cai como uma luva para a narrativa presidencial.

É importante ressaltar que o Jornal Nacional não mentiu. E mais do que isso: em sua apuração, ele inclusive refutou parcialmente o depoimento do porteiro. Foi a própria Globo que mostrou que Bolsonaro estava em Brasília no dia do assassinato, e que portanto, ao contrário do que o porteiro dissera, não poderia ter dado a autorização para a entrada do miliciano Élcio Queiroz no condomínio. A emissora deu também amplo espaço para o advogado de Bolsonaro se pronunciar, negando completamente o conteúdo.

Contudo, se os jornalistas tivessem ouvido, além da polícia, os promotores ligados ao caso, teriam já desde o início ouvido a versão deles, de que o depoimento era inteiramente falso. Ainda que a palavra dos promotores não seja a verdade absoluta, seria bom ter contado com essa versão na matéria, mesmo que fosse para mostrar possíveis pontas soltas dele.

Isso exigiria, contudo, mais tempo e recursos. Com as redações espremidas, carência de pessoas e dinheiro, com a pressão constante por se publicar furos e atrair a atenção imediata do espectador, a capacidade de se fazer jornalismo investigativo real – não ficar apenas dependendo das palavras de policiais e promotores – cai muito. O resultado são matérias bombásticas num primeiro momento mas que entregam menos certezas do que parece à primeira vista. Não duvido que o clima de pura animosidade que impera entre presidente e imprensa também tenha predisposto os jornalistas a veicular a matéria o quanto antes.

Seja como for, o fato é que Bolsonaro ficou visivelmente abalado com a reportagem, chegando a fazer ilações fora de propósito. Por exemplo, que o objetivo da reportagem era prender um de seus filhos – nenhum dos quais foi sequer mencionado – ou ainda de que tudo partiu do governador fluminense Wilson Witzel. Seus xingamentos e ameaças à Globo, ademais, são de uma baixeza lamentável para um Presidente da República. A julgar pela reação, ainda que o depoimento do porteiro seja falso, parece que a relação de Bolsonaro com milicianos lhe é um tema muito sensível.

O Brasil merece saber a verdade. Quem foi o mandante e quais os cúmplices do assassinato de Marielle Franco? Qual a exata natureza da relação de Jair Bolsonaro (e parentes) com milicianos? Por que o porteiro deu um depoimento falso, e quem esperava se beneficiar com isso? Witzel? O próprio Bolsonaro? Em tudo isso, o jornalismo tem um papel essencial. Aliás, a própria apuração por parte do MP sobre a veracidade da fala do porteiro parece ter sido provocada pela reportagem. O dilema entre resultado econômico e jornalismo de qualidade está mais crítico do que nunca. Onde faltam recursos e pessoas, só a dedicação e disciplina redobrada dos jornalistas profissionais pode fazer a diferença.