O crescimento econômico está acima das monstruosidades?

A política econômica caminha, mas há pessoas trabalhando ativamente pelo autoritarismo no Brasil, e massas dispostas a praticá-lo

Entre as pessoas minimamente educadas e dotadas de algum senso de humanidade, as falas do presidente Bolsonaro sobre Fernando Santa Cruz, morto pela ditadura militar, soam completamente lamentáveis e monstruosas. Mas há, penso, uma questão legítima sobre o quanto essas e outras manifestações do presidente importam na hora de fazermos uma avaliação objetiva de seu governo.

O presidente do Itaú, Cândido Bracher, em uma teleconferência com jornalistas, disse: “O que tenho notado é que o avanço das reformas não tem sido influenciado pelas turbulências políticas”. Tratava-se de uma avaliação do impacto das polêmicas especificamente no andamento das reformas, e não de um juízo mais geral sobre o governo. Mesmo assim, uma vez publicada na imprensa, gerou indignação, pois foi interpretada como se dissesse que as turbulências políticas (criadas pelas falas do presidente) não importam. O avanço da economia é o principal; o resto é secundário. O presidente do banco pode não pensar assim; sua frase foi o veículo involuntário de uma opinião. Mas muita gente pensa exatamente assim.

Penso que essa leitura – que divide o governo entre ações boas e palavras ruins – ignora que, entre as ações do governo, há também coisas muito ruins, como a política ambiental. Mas se focarmos apenas na área econômica, é difícil negar a conclusão, ao menos para o curto prazo. O desemprego brasileiro continua alto, em 12%. Frente a isso, ou seja, milhões de famílias que não conseguem encontrar sustento e que portanto têm o futuro incerto, preocupar-se com meras palavras, que por mais bárbaras que sejam não alteram nada diretamente, é mesmo um tanto desmedido. E não dá para negar que, no front econômico, o governo vem até agora caminhando – talvez um pouco mais devagar do que gostaríamos – na direção certa. Tivemos dois trimestres de queda do desemprego, e tudo indica que esse movimento continuará. Um Brasil que volte a funcionar, crescer e gerar empregos não vale ter de aguentar bobajadas periódicas do presidente?

Do outro lado, está quem enxerga graves perigos nas falas presidenciais. Para essa visão, longe de serem mero eflúvio espontâneo de uma mente confusa e ressentida, elas constituem parte de uma estratégia de fanatização de parte da opinião pública. Todas as falas do presidente têm o mesmo fim: promovem o ódio à ordem institucional brasileira. E há uma minoria expressiva da população que parece estar disposta e desejosa de quebras violentas dessa ordem, e que se reenergiza com as falas belicosas de Bolsonaro.

O debate público vai ficando cada vez mais carregado de ódio. Para quem é de esquerda, cada nova fala é uma prova de que seu ódio incondicional é justificado; para a direita, de que sua defesa aguerrida é necessária. Pouco a pouco, todos os limites do discurso vão sendo quebrados. E, com eles, vão junto os limites da ação. Bolsonaristas radicais assediaram a mãe do jornalista Glenn Greenwald, que sofre de câncer terminal, nas redes. A morte do pai de um advogado nas mãos da ditadura é tratada como chacota ou ainda como algo a ser celebrado.

Estamos ainda longe de uma situação, como na ditadura, em que o governo viole direitos políticos deliberadamente e sem disfarces. Mas caminhamos cada vez mais para uma situação na qual pessoas movidas pela paixão política ou pelo interesse desmedido cometem atos de violência que são, graças ao clima de guerra, tolerados como parte do jogo e até defendidos pelo seu lado. Isso é perigosíssimo e é dever de todo e qualquer líder trabalhar no sentido contrário, de desarmar essas paixões. Claramente, isso é impossível para o atual governo: ele já queimou todas as outras pontes possíveis. Sua sustentação depende única e exclusivamente de uma massa popular psicologicamente disposta a defendê-lo custe o que custar.

Congresso e STF estão tendo sucesso em conter e mesmo neutralizar iniciativas do governo. Por isso mesmo ele deverá apostar cada vez mais na divisão e nas paixões populares alimentadas com falas escandalosas. Elas podem não ter nenhum efeito direto e, comparadas à geração de empregos e às reformas que o Brasil precisa para voltar a crescer, realmente parecem pouco. Mas nem só de crescimento econômico é feita uma sociedade. Há pessoas trabalhando ativamente pelo autoritarismo no Brasil, e massas dispostas a praticá-lo. É responsabilidade de todos nós nos contrapor a essa ameaça.