Menos Olavo, mais militares: uma nova direção para o governo

Neste mês de fevereiro, o governo deu alguns passos que diminuíram consistentemente a influência dos olavistas no governo

Há certas características que são indissociáveis do presidente Bolsonaro, de modo que é impossível imaginar um governo dele sem que elas estejam presentes: a comunicação informal direta com os cidadãos e a defesa das polícias são duas delas. Há outras características do governo, contudo, que poderiam perfeitamente ser separadas dele ou até eliminadas: uma delas é o liberalismo econômico; outra, as doutrinas nacionalistas de extrema direita a la Steve Bannon e a influência de Olavo de Carvalho.

Neste mês de fevereiro, o governo deu alguns passos que diminuíram consistentemente a influência dos olavistas no governo (lembrando que o “olavismo” nada mais é do que uma atitude de completa submissão idolátrica ao poder central e intenção de solapar quaisquer instituições ou poderes que ficarem no caminho). Filipe Martins, o assessor de política internacional, perdeu muitas das atribuições que lhe tornavam um dos – se não o – principal conselheiro do presidente. Onyx Lorenzoni, cuja ausência de maiores méritos havia levado a se juntar como unha e carne os olavistas, perdeu a Casa Civil – que estava esvaziado – e foi lotado no menos relevante Ministério da Cidadania.

Ao mesmo tempo, a nomeação do general Braga Neto – que se diz cartesiano e positivista – para a Casa Civil -, a influência crescente do General Ramos da Secretaria de Governo, a retirada do Conselho Amazônia do poder do Ministro Salles para o Vice General Mourão (um efeito, ao que tudo indica, do recado claro recebido pelo governo em Davos) e a frequência crescente com que vemos fotos de Bolsonaro junto do Ministro Tarcísio, indicam que a ala militar, que andava em silêncio, está muito fortalecida.

Note-se que o General Heleno, embora militar, rendeu-se à estratégia central do olavismo e parece operar junto deles: contra os obstáculos impostos por instituições e outros poderes, apostar na pressão popular. Essa estratégia foi tentada em alguma medida durante 2019, e não foi bem sucedida: os protestos pró-governo ficaram menores a cada nova edição, não consta que tenham mudado o voto de nenhum deputado sobre assunto nenhum (vide a negociação real da reforma da previdência, que custou milhões em emendas para os deputados e na qual pontos importantes do projeto de Guedes foram tirados ou amenizados) e entramos em 2020 com um Congresso muito mais fortalecido do que no início do governo: com a PEC das emendas impositivas e, mais do que isso, a capacidade demonstrada de aprovar PECs em uma noite se assim desejarem, os congressistas se sentem muito empoderados frente ao governo.

Assim, para não falar da incapacidade técnica dos principais quadros olavistas, sua estratégia para garantir o poder máximo ao presidente tem sido um fracasso. Bolsonaro acerta ao se afastar deles e dar um espaço maior àqueles que demonstram alguma capacidade de entrega.

Há muito que se discutir sobre os méritos e deméritos dos militares no governo – a começar pelos possíveis conflitos de sua visão econômica com o liberalismo radical da equipe econômica -, mas estamos agora em um terreno mais afeito à política do mundo real: diálogo com a imprensa, aceitação da ciência, preferência por resultados concretos e não intrigas pelo favoritismo presidencial.

A mudança é bem-vinda, mas é uma pena constatar que todo esse desvio foi desnecessário. Se consistente nessa nova direção, teremos um governo melhor (sei que é cedo para comemorar). Mas um governo que escolhe melhorar justo num momento em que perdeu muito de seu poder e da boa vontade do Congresso e da sociedade, tudo por uma estratégia fracassada de poder total. Todo governo carrega consigo características – boas e ruins – que são de sua essência e não mudarão enquanto o ocupante do cargo ali estiver. Mas traz também falhas não-essenciais – frutos de alianças políticas mutáveis – que podem e devem ser corrigidas. Antes tarde do que nunca!